Texto [01/10] da Série: Avaliação de Materialidade na Sustentabilidade Empresarial
Há tempos e, por vezes, ainda hoje a Avaliação de Materialidade ainda é um desafio para muitos gestores em Sustentabilidade e ESG. Como especialista no assunto, tenho me deparado com diferentes formas de se fazer este tipo de avaliação, das mais simples às mais aprofundadas.
Em meus treinamentos e consultorias, é frequente eu ouvir o seguinte comentário: “Eu acho que minha empresa elaborou este processo de maneira errada”. Entretanto, o que tenho compreendido é que cada empresa possui o seu grau específico de maturidade e uma quantidade específica de recursos (humanos, de conhecimento, financeiros, etc.) para investir nesse processo.
Pensando nessas questões, nos primeiros textos dessa newsletter irei falar um pouco sobre diversas questões que orbitam o tema da Avaliação de Materialidade, de modo que possamos ter uma reflexão sobre nossas práticas.
Mas, afinal, o que é a Avaliação de Materialidade?
A avaliação de materialidade é um processo que impacta diretamente as decisões e ações das organizações, especialmente no contexto da sustentabilidade empresarial. Como sempre digo, ela tem um valor estratégico intrínseco: seja para a devida diligência das organizações, como para a criação de valor – especialmente a criação de valor compartilhado.
Ela se caracteriza uma análise cuidadosa e criteriosa que visa identificar os temas mais relevantes e significativos para a organização e seus stakeholders. Esse processo considera tanto os aspectos internos da organização quanto as influências externas que podem afetar seu desempenho e sua capacidade de criação de valor no longo prazo. Constitui, portanto, uma abordagem contextualizada à realidade da organização e, embora possa considerar escopos setoriais, o seu resultado é único para cada negócio.
- Nota: Segundo a Norma Universal 3 do GRI (Temas Materiais), a identificação e avaliação da materialidade é contínua, demanda o engajamento com stakeholders relevantes e especialistas e é conduzido independentemente do processo de relato de sustentabilidade. Aqui, é pressuposto que a organização realize uma avaliação contínua dos seus riscos e impactos, o que de fato não ocorre em todas as organizações por limitações de maturidade e até mesmo de recursos, como falei anteriormente.
Por isso, costumo dizer que a Avaliação de Materialidade é um processo que acontece em etapas e camadas e que se associa ao grau de maturidade da organização. Apesar disso, ela não deve deixar de observar seus impactos com periodicidade e de capacitar suas equipes para que esse processo seja internalizado de modo que haja uma melhoria contínua de sua práticas.
A Importância da Avaliação de Materialidade
A prática da avaliação de materialidade desempenha um papel crucial no desenvolvimento e na implementação eficaz das estratégias de sustentabilidade empresarial. Por meio dessa avaliação, as organizações são capazes de identificar e priorizar os temas e impactos (reais ou potenciais) que são mais relevantes para seus negócios, sendo esta uma das primeiras etapas para a identificação da sua devida diligência.
Além disso, a avaliação de materialidade fornece uma base sólida e objetiva para a tomada de decisões estratégicas, permitindo que a organização aloque recursos de forma mais eficiente, identifique oportunidades de inovação e antecipe-se a possíveis riscos, garantindo que seus esforços estejam alinhados com as demandas do mercado e com as expectativas de seus shareholders e stakeholders.
Impacto da Avaliação de Materialidade
A prática da avaliação de materialidade, quando conduzida de forma integrada às estratégias da organização, pode ser um diferencial competitivo e um catalisador para a transformação rumo a um modelo de negócios mais sustentável e resiliente. Como isso pode ocorrer na prática, André?
Por exemplo, durante o processo de avaliação de materialidade, uma empresa fictícia no setor de alimentos identificou:
- A partir do estudo do seu contexto, uma tendência de consumo responsável, que poderia trazer como riscos uma queda considerável no consumo de seus produtos;
- Com ajuda de seus especialistas e estudos de levantamento verificou uma possível queda de produtividade de uma de suas principais matérias-primas devido às alterações climáticas e mudanças no uso do solo de suas regiões produtivas;
- Por meio de estratégias de engajamento relacionadas ao monitoramento (canais de denúncia e reclamações) e à consulta aos seus stakeholders, foi possível identificar que, nestas mesmas áreas produtivas, o trabalho infantil era uma realidade e que os jovens estavam deixando o campo, para buscar melhores oportunidades na cidade.
Com base nessas descobertas, a empresa pode estabelecer um compromisso interno e implementou um programa para a organização juntamente aos seus stakeholders: Em resposta às possíveis alterações climáticas e impactos no solo, a organização adotou práticas de cultivo mais sustentáveis e produtivas e investiu em programas de formação com auxílio financeiro para jovens e as famílias de produtores de sua matéria-prima, possibilitando a permanência dos jovens no campo, e uma melhoria nas condições de geração de renda no campo.
Em relação ao trabalho infantil, por meio deste mesmo programa, a empresa estabeleceu medidas rigorosas para combater essa realidade, incluindo a implementação de projetos de educação e treinamento para adultos, além de uma renda mensal para as famílias que participam do programa e que levam as crianças à escola, a fim de mitigar o trabalho infantil.
Essas ações resultaram em melhorias significativas para a empresa: a partir de um grande desafio socioambiental, a empresa conseguiu encontrar diversas oportunidades:
- A iniciativa de cultivo sustentável não apenas permitiu lidar com os desafios das alterações climáticas, mas também melhorou a eficiência e a qualidade da produção.
- O compromisso em erradicar o trabalho infantil ampliou a reputação da empresa, fortaleceu seus laços com os stakeholders e promoveu um impacto positivo nas comunidades locais, contribuindo para um ambiente mais ético e responsável em suas operações.
- Além da mitigação dos impactos socioambientais, a organização criou uma linha de produtos em que parte da venda seria revertida para o programa, aumentando a sensibilização de seu público com o tema e um aumento de receita oriunda da tendência de consumo responsável (que pode ser verificada na etapa de estudo do contexto da avaliação de materialidade).
Apesar de parecer simples, por trás desses processos ocorrem muitas análises, sejam elas de impacto ou financeiras, características da dupla materialidade. Mas, esse simples exemplo mostra como a avaliação de materialidade pode influenciar ações concretas e benéficas, tanto para a empresa quanto para seus stakeholders e o meio ambiente quando implementada da maneira aprofundada.
- Será que alguém advinha em qual programa esse caso foi inspirado?
Nas próximas edições dessa newsletter irei me aprofundar em diversas questões relacionadas aos processos de Avaliação de Materialidade, para que possamos compreender os desafios de sua implementação e da sua gestão.





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