O que é ESG e por que é importante?

O conceito de ESG, acrônimo de Environmental, Social, and Governance (Ambiental, Social e Governança, em português), tem se tornado cada vez mais central no discurso corporativo e no mercado de capitais, refletindo uma mudança significativa nas expectativas de empresas e investidores. 

O ESG e a sustentabilidade são conceitos frequentemente utilizados de maneira intercambiável, mas há distinções importantes entre eles. Embora ambos estejam relacionados à responsabilidade corporativa e ao impacto ambiental e social das empresas, o ESG se distingue por ser uma estrutura menos abrangente e orientada para o investimento, enquanto a sustentabilidade é um conceito mais amplo que pode ser aplicado a diversas esferas, além das práticas empresariais.

O ESG surgiu como uma resposta à necessidade de investidores avaliarem o desempenho das empresas em áreas que não são tradicionalmente cobertas pelas análises financeiras. A sigla ESG representa um conjunto de critérios utilizados para avaliar o impacto e a sustentabilidade das operações empresariais, transcendendo os indicadores financeiros tradicionais. Esses critérios abrangem aspectos ambientais, como a gestão de emissões de gases de efeito estufa (GEE) e o uso de recursos naturais; sociais, incluindo a relação da empresa com funcionários, fornecedores, clientes e comunidades; e de governança, que se refere à transparência, ética, e responsabilidade corporativa. A abordagem ESG abrange três pilares principais:

  1. Ambiental (Environmental): Refere-se ao impacto que uma empresa tem sobre o meio ambiente, incluindo suas emissões de gases de efeito estufa (GEE), consumo de recursos naturais, gestão de resíduos e uso de energia renovável.
  2. Social (Social): Envolve as práticas empresariais relacionadas a direitos humanos, condições de trabalho, diversidade e inclusão, e impacto na comunidade. Inclui também como a empresa trata seus funcionários, clientes e outras partes interessadas.
  3. Governança (Governance): Relaciona-se à maneira como uma empresa é gerida e supervisionada, abrangendo questões como ética corporativa, transparência, estrutura do conselho de administração, remuneração de executivos e combate à corrupção.

Por outro lado, a Sustentabilidade é um conceito mais amplo e menos estruturado que o ESG. Ela refere-se ao desenvolvimento que satisfaz as necessidades do presente sem comprometer a capacidade das gerações futuras de satisfazerem suas próprias necessidades, conforme definido pelo Relatório Brundtland de 1987 (WORLD COMMISSION ON ENVIRONMENT AND DEVELOPMENT, 1987). A sustentabilidade abrange três dimensões principais: ambiental, social e econômica, muitas vezes referidas como o tripé da sustentabilidade (triple bottom line).

Enquanto o ESG é focado em critérios mensuráveis e específicos para orientar decisões de investimento e avaliação de risco, a sustentabilidade abrange uma perspectiva mais ampla que pode incluir políticas públicas, comportamentos de consumo, e práticas corporativas, entre outras áreas. Além disso, a sustentabilidade não se limita ao contexto empresarial e financeiro, sendo aplicável a uma variedade de contextos, desde o planejamento urbano até a gestão de recursos naturais.

Diferenças Chave entre ESG e Sustentabilidade

Uma diferença fundamental entre ESG e sustentabilidade é a abordagem e a finalidade. O ESG é uma estrutura utilizada principalmente para a tomada de decisões de investimento e gestão de risco em empresas. É uma ferramenta que ajuda investidores a avaliar o potencial de retorno e os riscos associados a fatores ambientais, sociais e de governança. Já a sustentabilidade é uma meta ou um princípio orientador que pode ser aplicado em diferentes contextos, visando a preservação de recursos e o bem-estar social a longo prazo.

Outra diferença importante é a forma como esses conceitos são medidos e relatados. Enquanto a sustentabilidade pode ser avaliada através de uma ampla gama de indicadores, o ESG envolve métricas específicas e padronizadas que facilitam a comparação entre empresas. Exemplos de métricas ESG incluem a pontuação ESG fornecida por agências como MSCI e Sustainalytics, que avaliam empresas com base em critérios específicos e divulgam essas informações para investidores e outras partes interessadas.

A importância do ESG cresceu significativamente nos últimos anos, especialmente entre investidores institucionais que buscam mitigar riscos não financeiros e identificar oportunidades de longo prazo. De acordo com a Global Sustainable Investment Alliance (GSIA), o volume de ativos sob gestão com estratégias ESG atingiu aproximadamente 35,9 trilhões de dólares em 2020, representando um terço dos ativos globais sob gestão (GSIA, 2021).

A crescente adoção do ESG reflete uma mudança de paradigma no mundo dos negócios, onde a sustentabilidade e a responsabilidade corporativa se tornam tão importantes quanto a lucratividade. No entanto, apesar de sua crescente popularidade, o ESG também tem sido alvo de críticas por parte de acadêmicos, investidores e gestores de empresas. Essas críticas variam desde a falta de padronização na avaliação de critérios ESG até acusações de greenwashing. Este texto explora as principais críticas ao ESG e discute por que, apesar dessas controvérsias, o conceito continua sendo relevante.

A Importância do ESG

O crescimento da relevância do ESG pode ser atribuído a diversos fatores, incluindo a pressão de consumidores mais conscientes, a demanda por transparência por parte de investidores institucionais e as regulamentações governamentais em evolução. A importância do ESG reside em sua capacidade de gerar valor a longo prazo, tanto para as empresas quanto para a sociedade como um todo. Estudos demonstram que empresas com boas práticas ESG apresentam melhor desempenho financeiro, menor volatilidade e maior resiliência a crises (LODH, 2020).

Diversos estudos têm demonstrado uma correlação positiva entre práticas de ESG e desempenho financeiro (KHAN, SERAFEIM, YOON, 2015). Uma pesquisa conduzida pela Universidade de Oxford em conjunto com a Arabesque Partners revisou mais de 200 fontes acadêmicas e relatórios de mercado, concluindo que 88% das empresas que adotam práticas ESG robustas demonstram melhor desempenho operacional e 80% delas apresentam impactos positivos nos preços de suas ações (CLARK; FEINER; VIEHS, 2015). Este resultado é frequentemente atribuído à melhoria na gestão de riscos, à eficiência operacional e à atração de capital a custos mais baixos, fatores que, coletivamente, contribuem para a estabilidade e o crescimento a longo prazo das empresas.

O cenário de risco e incerteza da pandemia de Covid-19 (agravado pelas interrupções de setores produtivos no mundo todo e pelas preocupações sobre os impactos das mudanças climáticas), trouxe consigo a queda do mercado de ações de 2020. Entretanto, mesmo em meio a tais paradigmas, os resultados dos fundos de índices sustentáveis tiveram uma performance melhor do que fundos de índices tradicionais no primeiro trimestre do mesmo ano (HALE, 2020).

Além disso, uma análise da MSCI, empresa líder em pesquisa de índices de mercado, descobriu que empresas com pontuações ESG mais altas apresentam menor volatilidade nos retornos de suas ações e são menos propensas a enfrentar grandes perdas de valor de mercado, especialmente em períodos de crise econômica (LODH, 2020). Isso se deve, em parte, à capacidade dessas empresas de gerenciar melhor os riscos não financeiros, como questões ambientais e sociais, que podem ter um impacto significativo no valor da empresa.

Por outro lado, um estudo da Harvard Business Review (2022) reconhece o crescente interesse dos investidores em ESG, mas destaca a inconsistência da correlação entre práticas ESG e retornos financeiros superiores. Isso sugere que, embora existam exemplos de sucesso, o mercado como um todo ainda está se ajustando e amadurecendo nessa área, resultando em variações na forma como o desempenho ESG impacta os retornos financeiros.

Assim, enquanto alguns estudos enfatizam o potencial de longo prazo do ESG para impulsionar o desempenho financeiro, a Harvard Business Review sugere que essa relação ainda está se desenvolvendo, com variabilidade nos resultados. Juntas, essas perspectivas indicam que, embora o ESG possa criar valor significativo, sua implementação eficaz e o reconhecimento das nuances do mercado são essenciais para que esse valor seja plenamente realizado​

ESG e Custo de Capital

Outro aspecto relevante do impacto do ESG na performance financeira é a relação entre as práticas ESG e o custo de capital das empresas. Empresas que são vistas como líderes em ESG tendem a ter acesso a financiamento a taxas mais favoráveis, pois investidores e credores percebem essas empresas como menos arriscadas.

Um estudo publicado na Journal of International Financial Markets aponta que empresas com forte desempenho em ESG tendem a ter um custo de capital inferior em comparação com aquelas que não seguem esses critérios (CHEN et al., 2023). Isso se deve, em parte, à menor percepção de risco por parte dos investidores, que associam práticas sustentáveis e de governança eficaz a uma menor probabilidade de eventos adversos que poderiam impactar negativamente o valor da empresa.

Além de reduzir o custo de capital, a adoção de práticas ESG pode influenciar positivamente a valorização de mercado das empresas. Um estudo do Morgan Stanley Capital International (MSCI) constatou que, entre 2015 e 2019, as empresas com as melhores práticas ESG superaram o desempenho de seus pares no mercado de ações global (LODH, 2020). Essa valorização é impulsionada pelo crescente interesse de investidores institucionais e individuais em incluir empresas socialmente responsáveis em suas carteiras, refletindo uma mudança nas preferências do mercado.

Impacto do ESG no Cenário Brasileiro


Apesar do crescente reconhecimento da importância do ESG, muitas empresas ainda enfrentam desafios na sua implementação. Um dos principais obstáculos é a padronização dos relatórios e métricas de ESG. A ausência de uma norma globalmente aceita dificulta a comparação e a avaliação do desempenho ESG entre diferentes empresas. No entanto, iniciativas como os padrões da Global Reporting Initiative (GRI) e a criação do International Sustainability Standards Board (ISSB) pela IFRS Foundation visam mitigar essas dificuldades, promovendo maior transparência e comparabilidade.

No Brasil, a adoção do ESG ainda está em fase de amadurecimento, mas já se observa um crescente interesse por parte de empresas e investidores. O ambiente regulatório brasileiro tem se adaptado para fomentar a adoção de práticas ESG. A Circular Susep 666, por exemplo, estabelece critérios para que as seguradoras integrem aspectos ESG em suas operações, sinalizando uma preocupação crescente com a sustentabilidade no setor de seguros. Além disso, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) editou a Resolução CVM 193, que trata da divulgação de informações sobre sustentabilidade pelas companhias abertas de maneira padronizada pelo ISSB. Essa resolução reforça a importância de uma comunicação clara e padronizada sobre práticas ESG, facilitando o acesso dos investidores a dados relevantes.

Outro avanço significativo foi o início da construção  da Taxonomia Verde no Brasil, que visa criar um sistema de classificação para atividades econômicas sustentáveis. Essa política, inspirada na Taxonomia da União Europeia, ajuda a direcionar investimentos para setores que promovem a sustentabilidade ambiental, proporcionando maior segurança para investidores interessados em alocar capital em projetos sustentáveis. O desenvolvimento de um Selo Verde também é destaque na agenda, com o objetivo de certificar produtos e serviços que atendem a critérios específicos de sustentabilidade, ampliando o reconhecimento de práticas responsáveis no mercado brasileiro.

O cenário brasileiro está, portanto, em transformação, com políticas e regulamentações que incentivam a integração do ESG nas estratégias empresariais. No entanto, para que o ESG atinja seu pleno potencial, é essencial que essas iniciativas sejam acompanhadas de um esforço contínuo para melhorar a transparência, a padronização e a eficácia das práticas sustentáveis no país.

Críticas ao ESG

Uma das principais críticas ao ESG é a falta de padronização e clareza na avaliação e medição dos critérios. Diferentes agências de classificação ESG utilizam metodologias distintas, o que pode levar a classificações inconsistentes e pouco comparáveis entre empresas. Por exemplo, uma pesquisa publicada na The Accounting Review revelou que as classificações ESG de uma mesma empresa podem variar significativamente entre diferentes provedores de rating, criando incertezas para investidores e outras partes interessadas (Christensen, Serafeim e Sikochi, 2022). Essa falta de uniformidade levanta dúvidas sobre a eficácia do ESG como ferramenta de avaliação de risco e de oportunidades.

Outra crítica comum ao ESG é a prática de greenwashing, na qual empresas promovem suas credenciais ambientais ou sociais de maneira exagerada ou enganosa, sem que essas práticas sejam substanciais ou eficazes. Essa prática pode enganar consumidores e investidores, minando a credibilidade das iniciativas ESG. Um relatório da Harvard Business Review aponta que muitas empresas que afirmam aderir a práticas ESG frequentemente falham em implementá-las de maneira significativa, utilizando o ESG mais como uma estratégia de marketing do que como um compromisso real com a sustentabilidade (LYON; MAXWELL, 2011).

Em 2021 publicamos um trabalho que classificamos o ESG como um fenômeno de gestão devido à sua difusão, e questionamos a possibilidade da ênfase no ESG por parte de empresas poder levar a uma abordagem fragmentada e insuficiente para as empresas lidarem com problemas sistêmicos como as mudanças climáticas e a desigualdade social (CALDERAN et al., 2021).

Relevância do ESG

Apesar dessas críticas, o ESG continua sendo relevante por várias razões. Primeiramente, ele oferece uma estrutura para que empresas e investidores abordem questões que vão além das métricas financeiras tradicionais, permitindo uma visão mais holística e integrada da gestão de riscos e oportunidades. Como mostrado por um estudo da McKinsey & Company, empresas que se destacam em critérios ESG têm maior probabilidade de atrair e reter talentos, reduzir custos operacionais, e melhorar suas relações com reguladores e comunidades locais, todos fatores que contribuem para o sucesso a longo prazo (MC KINSEY & COMPANY, 2020).

Além disso, o ESG tem sido fundamental na promoção de maior transparência e responsabilidade nas práticas empresariais. A pressão por relatórios ESG e a demanda por parte de investidores institucionais têm incentivado as empresas a adotarem práticas mais responsáveis e a divulgarem suas ações de forma mais clara. Esse movimento é particularmente importante em um contexto global onde questões como mudanças climáticas, justiça social e governança corporativa estão no centro das atenções.

Por fim, mesmo com as limitações atuais, o ESG serve como uma ferramenta importante para o engajamento dos investidores e como um catalisador para a mudança. À medida que a demanda por investimentos sustentáveis continua a crescer, o ESG desempenha um papel crucial em direcionar o capital para empresas que buscam não apenas o lucro, mas também um impacto positivo no mundo (KHAN, SERAFEIM, YOON, 2015). Um relatório da Global Sustainable Investment Alliance (GSIA) indicou que, em 2020, aproximadamente 35,9 trilhões de dólares em ativos estavam sob gestão com estratégias ESG, representando um terço dos ativos globais sob gestão, o que demonstra a força e o impacto desse conceito no mercado financeiro (GSIA, 2021).

Referências:

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