Avaliação de materialidade: por que a decisão mais estratégica do seu relatório é a que menos aparece nele

A avaliação de materialidade é, provavelmente, a etapa menos visível de um relatório de sustentabilidade — e a que mais determina o que ele vai dizer. Ela não aparece na capa, raramente vira manchete, e costuma ser tratada internamente como uma fase preparatória, quase administrativa, antes do “relatório de verdade” começar.

Essa é exatamente a leitura que este texto quer questionar. A matriz de materialidade não é um anexo metodológico: é o filtro que decide quais riscos, impactos e oportunidades a empresa vai comunicar ao mercado — e, tendo em vista o quanto relatórios de sustentabilidade circulam, são citados e revisitados ao longo dos anos, o que entra ou fica de fora dessa matriz carrega peso reputacional que dura muito além do ciclo de publicação anual.

O que a dupla materialidade formalmente exige

Sob a CSRD europeia, a referência metodológica é a EFRAG Implementation Guidance 1, publicada em maio de 2024, que estrutura o processo em quatro etapas: mapeamento do contexto organizacional, identificação de impactos, riscos e oportunidades (IROs), avaliação e pontuação, e divulgação. O conceito central é que um tema pode ser material por duas vias distintas, e basta uma delas para entrar no relatório.

Pela materialidade de impacto, avalia-se o efeito da empresa sobre pessoas e meio ambiente, considerando escala, escopo, irreversibilidade e probabilidade — e, especificamente para impactos sobre direitos humanos, a severidade do impacto tem precedência sobre a probabilidade de ele ocorrer, um princípio herdado dos Princípios Orientadores da ONU sobre Empresas e Direitos Humanos.

Pela materialidade financeira, avalia-se como um tema de sustentabilidade afeta o desempenho, a posição financeira e o custo de capital da empresa, considerando magnitude, probabilidade e horizonte temporal.

O pacote Omnibus I, com os padrões ESRS revisados adotados pela Comissão Europeia em 3 de julho de 2026, simplificou a mecânica desse processo — permite abordagens top-down ou bottom-up e aceita análise qualitativa quando a conclusão já é clara, sem exigir pontuação numérica granular em todos os casos.

O que o Omnibus não alterou é o princípio: a dupla materialidade foi expressamente mantida como conceito central da CSRD. A simplificação mexeu no como se documenta a avaliação, não em se ela precisa, de fato, captar os dois lados — impacto e finanças — de forma genuína.

O que a própria EFRAG encontrou quando foi conferir

Aqui vale aplicar o mesmo ceticismo que qualquer metodologia bem desenhada no papel merece quando confrontada com a prática: uma revisão da EFRAG em 2025 sobre avaliações de dupla materialidade já em circulação encontrou que mais de 40% delas careciam de rigor adequado.

As falhas recorrentes não eram sofisticadas — eram estruturais: tratar a avaliação como exercício de checklist, misturar as pontuações de impacto e financeira em um único índice combinado (o que apaga justamente a distinção que a dupla materialidade existe para preservar), documentação insuficiente sobre os limiares usados para decidir o que é ou não material, ausência de análise da cadeia de valor, e engajamento de stakeholders insuficiente. Isso não é uma crítica externa à metodologia — é a própria organização responsável por ela reconhecendo que, na prática, um processo desenhado para produzir julgamento qualificado está sendo executado, com frequência, como preenchimento de formulário.

O erro de misturar as duas pontuações em um índice único merece atenção à parte, porque ilustra bem um problema de causalidade mal resolvida: um tema pode pontuar baixo em impacto e alto em risco financeiro (ou o inverso), e a resposta correta da metodologia é que ele entra no relatório de qualquer forma, por qualquer uma das duas vias.

Quando as pontuações são fundidas em uma média, um tema financeiramente crítico mas com impacto social difuso — ou um impacto social grave mas de baixa relevância financeira imediata — pode acabar abaixo da linha de corte, exatamente o resultado que a dupla materialidade foi desenhada para evitar. Não é uma falha da metodologia; é uma falha de quem a implementa sem entender por que a distinção existe.

Por que uma matriz genérica de setor não serve — e por que isso é mais do que preguiça metodológica

É comum ver consultorias e plataformas oferecerem matrizes de materialidade “pré-configuradas” por setor, com temas já pontuados, para acelerar o processo. O problema não é apenas que isso é raso — é que contraria o próprio requisito metodológico: materialidade financeira depende de exposição real do negócio (uma têxtil verticalizada com produção própria tem exposição a trabalho análogo ao escravo estruturalmente diferente de uma têxtil que só distribui marca licenciada, mesmo as duas estando no “mesmo setor” para fins de matriz genérica), e materialidade de impacto depende de onde e como a empresa efetivamente opera — geografia, cadeia de fornecedores, comunidades afetadas. Uma matriz de setor pode ser ponto de partida para brainstorming interno; usada como resposta final, ela reproduz exatamente o problema que a EFRAG descreveu como “checklist exercise” — e devolve pontuações que não representam a exposição real daquela empresa específica.

GRI e ESRS enxergam materialidade de formas diferentes — e nenhuma das duas é completa sozinha

Vale uma ressalva sobre limitação metodológica que raramente aparece nesse tipo de conteúdo: GRI e ESRS não medem a mesma coisa quando falam de materialidade, e cada um tem um ponto cego real.

O GRI 3 usa lente única, focada em impactos reais e potenciais sobre pessoas, meio ambiente e economia — uma leitura de dentro para fora, priorizando prestação de contas a quem é afetado. Isso significa que um risco financeiramente relevante para a empresa, mas com impacto direto limitado sobre stakeholders externos — por exemplo, vulnerabilidade de uma cadeia de suprimentos a disrupção climática, quando o impacto imediato sobre populações locais é baixo — pode escapar do relatório sob GRI puro.

Já o ESRS, com sua lente dupla, tende a capturar isso pela via financeira, mas carrega o risco inverso: um problema ambiental de longuíssimo prazo, com impacto real sobre comunidades futuras mas efeito financeiro modesto no horizonte de avaliação atual, pode ser deprioritizado se a leitura financeira dominar a discussão. Nenhum dos dois frameworks resolve isso sozinho — o que exige, de novo, julgamento humano informado pelo contexto do negócio, não a aplicação mecânica de qualquer um dos dois.

Ouvir stakeholder de verdade é diferente de listar quem foi “consultado”

O engajamento insuficiente de stakeholders aparece como uma das falhas mais citadas na revisão da EFRAG, e vale nomear por que isso acontece na prática: é comum que o “engajamento” se resuma a uma pesquisa online curta, distribuída internamente e para alguns parceiros comerciais, sem alcançar quem de fato sofre o impacto — comunidades no entorno de operações, trabalhadores da cadeia de fornecedores, populações afetadas por questões ambientais específicas. Um processo desenhado assim produz respostas de quem já está mais próximo e alinhado à empresa, o que tende a subestimar sistematicamente temas desconfortáveis — exatamente os que mais precisam aparecer em um relatório sério. Isso não é um detalhe de execução: é o ponto em que a dupla materialidade deixa de ser um exercício genuíno de escuta e vira confirmação do que a empresa já pretendia dizer.

Horizonte temporal: por que materialidade financeira e de impacto não se movem no mesmo ritmo

A materialidade financeira, por definição metodológica, é avaliada considerando magnitude, probabilidade e horizonte temporal — o que já embute a pergunta “isso importa em quanto tempo?”. Mas a materialidade de impacto não segue automaticamente o mesmo relógio: um impacto ambiental pode ser irreversível e severo, mas só se manifestar financeiramente em décadas — se é que se manifesta em termos que o mercado reconhece hoje.

Uma empresa que calibra sua matriz de materialidade só pelo horizonte financeiro de curto e médio prazo tende, estruturalmente, a subestimar impactos de natureza ambiental de longa maturação. O ajuste correto não é escolher um horizonte único para toda a matriz, mas reconhecer explicitamente, tema por tema, se a leitura relevante é de curto, médio ou longo prazo — e, principalmente, não deixar essa escolha implícita.

O relatório tem vida longa — e o que fica de fora da matriz também

Um estudo publicado nos Cadernos EBAPE.BR (FGV), que analisou relatórios socioambientais da Vale S.A. entre 2015 e 2021, traz um exemplo concreto do que está em jogo aqui. Segundo os autores, em 2014 a Vale classificou o tema “resíduos” como não material em sua matriz de materialidade — e só o reclassificou como material depois do rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG), em novembro de 2015, empreendimento da Samarco em que a Vale detinha 50% de participação.

O mesmo estudo identifica outros padrões no relato da empresa no período: cerca de 70% dos gastos socioambientais apresentados como investimento voluntário correspondiam, segundo os pesquisadores, a obrigações legais; a cooperação com autoridades de fiscalização foi descrita como conduta “proativa”; e impactos de rompimentos de barragem foram negados em momentos em que pesquisadores e organizações internacionais já apontavam contaminação por rejeitos. Os autores também citam o rompimento da barragem de Brumadinho (MG), em janeiro de 2019, com 270 mortes, como o evento que voltou a colocar o tema em xeque.

Este caso serve como um alerta útil: mesmo lido de forma generosa, ele mostra o que acontece quando um tema com potencial de impacto catastrófico é avaliado, em determinado momento, como não material — e como essa decisão específica, tomada anos antes, volta a ser examinada exatamente quando o risco se concretiza.

Relatórios de sustentabilidade têm vida útil longa: são citados por investidores anos depois, analisados por pesquisadores, usados como referência em processos de due diligence de clientes e financiadores, e frequentemente reaparecem no noticiário quando um evento reativa o tema que a empresa já havia — ou não — reconhecido como material.

Uma matriz de materialidade malfeita não é um problema que desaparece na publicação seguinte; ela permanece registrada, com data, como o momento em que a empresa teve a chance de nomear um risco ou impacto e optou por não fazê-lo, seja por decisão consciente, seja por um processo raso demais para captá-lo.

É por isso que tratar a avaliação de materialidade como etapa estratégica — que exige tempo, contexto específico do negócio e escuta real — não é rigor por rigor. É reconhecer que o documento que sai desse processo vai falar pela empresa por muito mais tempo do que o ciclo de relato de um ano.

Fontes: EFRAG Implementation Guidance 1 e revisão de 2025 sobre avaliações de dupla materialidade; Comissão Europeia, adoção dos ESRS revisados (3/07/2026); GRI 3: Material Topics 2021; Cadernos EBAPE.BR — relatório socioambiental e greenwashing na Vale S.A. (2015–2021).

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