O relatório que a ONU divulgou em 2 de setembro de 2026 abre com números que não são projeções, são registros: cerca de mil mortos e mais de quatro mil desaparecidos depois do rompimento de geleiras no Nepal e na China; dezenas de milhares de mortes em excesso atribuídas a cinco ondas de calor na Europa; rios europeus secos em pleno verão; fumaça de incêndios florestais cobrindo cidades na América do Norte e no Sudeste Asiático. Esses eventos não são o argumento central do Limiting Overshoot — Navigating Exceedance of 1.5°C and Pathways towards Return, publicado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA). Eles são o pano de fundo que torna esse argumento inevitável: pela primeira vez, um documento oficial da ONU admite, sem o eufemismo de relatórios anteriores, que a meta de 1,5°C do Acordo de Paris será ultrapassada — e que essa ultrapassagem já está, na prática, fora de alcance para ser evitada.
Segundo o PNUMA, o aquecimento de longo prazo do planeta já gira em torno de 1,4°C acima dos níveis pré-industriais, e 2024 — o ano mais quente já registrado — chegou a 1,55°C na média anual. A leitura de longo prazo (a que importa para o Acordo de Paris, calculada em médias de décadas, não em picos de um único ano) deve cruzar 1,5°C “nos próximos anos”. Depois disso, o relatório traça três cenários que raramente aparecem juntos com essa clareza fora do documento técnico: no melhor caso — se todos os países cumprirem integralmente suas metas nacionais (NDCs) e compromissos de zero líquido —, o pico do aquecimento fica em torno de 1,8°C. Na trajetória atual de políticas efetivamente em vigor, sem novos compromissos, a mediana das projeções para 2100 é 2,6°C. Entre um número e outro há 0,8°C de diferença — e essa diferença é inteiramente política, não é uma incerteza científica residual.
O que o PNUMA está de fato dizendo — e o que não está
O relatório propõe um caminho chamado “overshoot, peak and decline” (ultrapassagem, pico e declínio), descrito como uma curva de quatro estágios: exceder 1,5°C, atingir um pico (idealmente abaixo de 2°C), iniciar um declínio de temperatura e, por fim, estabilizar em patamar mais baixo. A recomendação central não é resignação: é que cortes imediatos e sustentados de emissões — incluindo metano —, remoção de carbono (CDR) sob governança rigorosa e adaptação que reduza vulnerabilidade determinam a altura e a duração desse pico. Secretário-geral da ONU, António Guterres, resumiu a tese em uma frase: é preciso “tornar a ultrapassagem acima de 1,5 grau tão pequena e curta quanto possível”. A diretora-executiva do PNUMA, Inger Andersen, reforçou que “ainda podemos e devemos seguir o caminho certo”.
É uma tese cientificamente defensável — a física do sistema climático de fato responde a cortes de emissão, e quanto antes eles vierem, menor tende a ser o pico. Mas vale notar o que o relatório não faz: ele não estabelece por quantos anos ou décadas o mundo ficará acima de 1,5°C, porque essa duração depende de decisões políticas que ainda não foram tomadas. Não é uma omissão editorial — é uma limitação real e declarada do exercício. Qualquer número fechado de “quantos anos dura o overshoot” que você vir circulando é extrapolação de terceiros, não uma cifra do relatório em si.
“Ainda dá para reverter” é ciência ou é esperança política?
Aqui está o ponto que a cobertura mais entusiasmada do relatório tende a engolir: a afirmação de que “ainda é possível reverter” descreve uma trajetória matematicamente possível sob condições políticas que hoje não existem — não uma previsão baseada na tendência atual. É verdade no mesmo sentido em que é verdade dizer que um carro consegue parar a tempo se o freio for pisado com força suficiente agora: correto, mas condicional a uma ação que ainda não aconteceu. A trajetória de política real, a que gera 2,6°C, é a que está em curso. A de 1,8°C é a que exigiria uma ruptura de cumprimento de metas que nenhum ciclo de NDCs produziu até hoje desde Paris.
Essa distinção não passou despercebida entre especialistas que leram o relatório com mais ceticismo. Bill Hare, da Climate Analytics, avaliou que o documento corre o risco de funcionar como “um apelo à apatia, em vez de um chamado à ação” — justamente porque, segundo ele, dedica apenas uma menção passageira à eliminação de combustíveis fósseis, o principal alavanca de redução de emissões, sem detalhar um roteiro de saída equivalente em urgência ao diagnóstico do problema. Claudio Angelo, do Observatório do Clima, foi na mesma direção ao afirmar que “entramos numa era de consequências”, cobrando financiamento de adaptação para os países mais vulneráveis — que, historicamente, contribuíram menos para o aquecimento e têm menos capacidade de se adaptar a ele.
“Gerenciar” a ultrapassagem de 1,5°C não é uma estratégia — é a transferência do fardo de poluidores históricos para os países menos responsáveis pela crise.
Center for International Environmental Law (CIEL), em resposta ao relatório do PNUMA
O Center for International Environmental Law (CIEL) foi mais duro: chamou tecnologias de remoção de carbono em larga escala — captura direta do ar, bioenergia com captura e armazenamento, intervenções oceânicas — de “geoengenharia rebatizada”, com riscos para biodiversidade e direitos humanos, contribuição modelada de apenas alguns décimos de grau e potencial de servir de justificativa para prolongar o uso de combustíveis fósseis por décadas. O próprio World Resources Institute (WRI), organização alinhada à tese central do relatório, fez a mesma ressalva em termos mais brandos: “remoção de carbono não pode substituir cortes profundos de emissões”. Quando organizações favoráveis e céticas ao relatório convergem no mesmo alerta específico — CDR não é solução principal, é complemento —, essa é provavelmente a leitura mais confiável disponível hoje.
Há ainda uma nuance que o próprio PNUMA reconhece em material complementar ao relatório principal: mesmo que a temperatura volte a cair depois do pico, os sistemas que respondem ao aquecimento — oceanos, calotas polares, ecossistemas — operam em escalas de tempo muito mais lentas que a atmosfera. “Voltar” não significa “voltar ao normal”. Um recuo de temperatura em 2080, por exemplo, não desfaz o degelo ou a perda de biodiversidade acumulados até lá. Isso reposiciona a pergunta que interessa a quem toma decisão de negócio: não é “o aquecimento vai ser revertido”, é “quanto dano acumulado até a reversão será permanente para os ativos, operações e cadeias que dependem de um clima relativamente estável”.
Por que isso é, antes de tudo, um problema de gestão de risco
A implicação prática do relatório não é climática, é atuarial e regulatória: overshoot deixa de ser um cenário de cauda — algo a considerar “se o pior acontecer” — para se tornar o cenário-base de planejamento. Isso muda a forma como pelo menos quatro frentes de risco corporativo precisam ser tratadas.
Risco físico: o que já estava sendo reprecificado ganha respaldo estrutural
O mercado segurador já vinha reprecificando risco climático físico antes deste relatório — o PNUMA não causa esse movimento, ele confirma que a tendência subjacente não é um pico passageiro. Segundo dados da Verisk citados na cobertura do setor, as perdas seguradas por catástrofes vêm caminhando para uma média anual próxima de US$ 171 bilhões. Os próprios eventos citados no relatório do PNUMA ilustram por que essa reprecificação tende a se acelerar, não a estabilizar: o rompimento de geleiras no Himalaia ameaça infraestrutura, hidrelétricas e rotas de mineração na região; a seca de rios europeus compromete logística industrial que depende de transporte fluvial. Para uma economia como a brasileira — com matriz elétrica fortemente hidrelétrica e agricultura de exportação sensível a regularidade climática —, a lógica de fundo é a mesma: ativos dimensionados para um regime climático que deixou de ser a referência estatística válida.
Risco de transição: da rampa suave ao zigue-zague tardio
A diferença de 0,8°C entre o cenário de pleno cumprimento (1,8°C) e o de políticas atuais (2,6°C) é também um indicador de risco de transição. Quanto mais tempo os governos adiarem cortes profundos, menor a janela para uma transição gradual e mais provável se torna uma resposta regulatória tardia e concentrada — precificação de carbono, mecanismos de ajuste de fronteira e fim de subsídios a combustíveis fósseis chegando de forma abrupta, em vez de escalonada. Não é uma certeza: é um risco que cresce proporcionalmente ao atraso, e que empresas com ativos de vida longa (energia, siderurgia, papel e celulose, cimento) deveriam tratar como parte central do seu planejamento de capital, não como hipótese remota.
Metas net-zero apoiadas em remoção de carbono ganham um risco jurídico e reputacional próprio
A convergência entre WRI e CIEL sobre os limites do CDR tem uma consequência direta para empresas: metas de zero líquido que dependem fortemente de créditos de remoção — em vez de reduções reais de emissão na operação e na cadeia — carregam uma exposição específica à medida que a governança sobre integridade desses créditos se torna mais rigorosa. Compromissos climáticos construídos sobre uma tecnologia que o próprio relatório da ONU descreve como capaz de render “apenas alguns décimos de grau” de contribuição global tendem a enfrentar escrutínio crescente de investidores, reguladores e litígio — um risco de credibilidade que se soma, não substitui, o risco físico.
A lacuna de Escopo 3 é onde o risco de cadeia de suprimentos está escondido
Um estudo separado da EcoVadis com a BCG, publicado em 2025 com base em mais de 133 mil avaliações de carbono e análise de 83 mil empresas em 220 setores, estimou que a inação climática pode gerar mais de US$ 500 bilhões em passivos anuais globais até 2030 — e encontrou que apenas 24% das empresas reportam emissões de Escopo 3, e só 8% estabelecem metas de redução para essa categoria, mesmo com o Escopo 3 representando, em média, 21 vezes as emissões de Escopo 1 e 2 somadas. O mesmo estudo apurou que investimentos em ação climática na cadeia de suprimentos podem gerar entre 3 e 6 vezes de retorno via custos regulatórios evitados. É exatamente na cadeia de fornecedores — a parte menos monitorada da pegada de carbono da maioria das empresas — que o risco físico do overshoot (fornecedores em regiões cada vez mais expostas a seca, enchente e calor extremo) e o risco de transição (fornecedores sujeitos a regulação futura ainda não mapeada) se sobrepõem sem que a maioria das empresas tenha visibilidade sobre isso.
No Brasil, a era do overshoot chega com cronograma: o SBCE
Independentemente do que for decidido nas negociações internacionais, empresas brasileiras já têm um calendário regulatório concreto para acompanhar: o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), instituído pela Lei 15.042/2024 e em fase de regulamentação progressiva. A lei prevê obrigações escalonadas por volume de emissão — operadores acima de 10 mil toneladas de CO₂e por ano precisam submeter planos de monitoramento e relatórios de emissões; acima de 25 mil toneladas, passam a ter exigências periódicas de reconciliação, comprovando ativos suficientes para cobrir suas emissões líquidas. A agropecuária primária está excluída do escopo direto, mas processamento, indústria e distribuição não estão. O calendário final de cada fase ainda depende do ritmo da regulamentação, mas a direção é clara: a pressão regulatória sobre grandes emissores industriais no Brasil vai crescer nos próximos anos, no mesmo intervalo de tempo em que o PNUMA projeta que a decisão sobre o tamanho do pico de aquecimento será tomada. A COP31, sediada pela Turquia com presidência australiana em 2026, é o primeiro teste político de peso sobre se o caminho de “pico e declínio” ganha compromissos vinculantes ou permanece um exercício de modelagem.
O que continua sem resposta
Vale nomear as incertezas com honestidade, porque elas são reais e relevantes para decisão de negócio, não apenas acadêmicas. O relatório não define por quanto tempo o mundo ficará acima de 1,5°C — essa duração depende de escolhas políticas ainda não feitas. Não há consenso sobre a escala em que tecnologias de remoção de carbono poderão operar de forma segura e economicamente viável — as estimativas de contribuição são, pelas palavras do próprio relatório, de “décimos de grau”. E há uma pergunta de governança que o PNUMA levanta e não resolve: quando o clima que volta a esfriar não restaura o que foi perdido no caminho, quem decide o que é protegido primeiro, e com o dinheiro de quem?
Para quem toma decisão em empresas expostas a risco climático — o que, a essa altura, é a maioria das empresas com ativos físicos, cadeias de suprimento internacionais ou operações sujeitas a regulação ambiental —, a leitura mais útil do relatório do PNUMA não é o otimismo da manchete “ainda dá para reverter”. É o intervalo entre 1,8°C e 2,6°C. Esse intervalo não é uma faixa de incerteza científica a ser resolvida no futuro: é o espaço de decisões políticas e corporativas que estão sendo tomadas agora, em anos que coincidem com a vida útil de plantas industriais, contratos de seguro plurianuais e metas de descarbonização já anunciadas ao mercado. Tratar overshoot como hipótese distante, a ser revisitada quando os números piorarem, é a única opção que o próprio relatório deixa claro que não está mais disponível.
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