Em fevereiro de 2026, o jornal português Público publicou uma manchete direta: “Apple e outras grandes empresas dos EUA deixam cair metas ESG”. A reportagem tinha lastro. Semanas antes, a Bloomberg havia revelado que a Apple removeu, discretamente, o modificador ambiental que ligava parte da remuneração variável de Tim Cook e de outros executivos ao desempenho em métricas como redução de gases de efeito estufa e uso de energia renovável na cadeia de fornecedores — um mecanismo que estava em vigor desde 2021. A Apple não foi a única: Starbucks, Salesforce e Mastercard fizeram movimentos parecidos, num padrão que, segundo a Bloomberg, ecoa o que já havia acontecido dois anos antes com metas de diversidade também atreladas a bônus executivos.
É tentador ler esse tipo de notícia como o atestado de óbito do ESG corporativo. Mas essa leitura simplifica uma realidade mais interessante — e é justamente essa complexidade que abre a primeira edição desta coluna, “Futuro do ESG”. Aqui, o compromisso é não aceitar a narrativa mais fácil (nem a do “ESG morreu”, nem a do “ESG é irreversível”) sem examinar o que os dados efetivamente sustentam.
Duas evidências que não contam a mesma história — e isso é o ponto
Três meses depois da notícia sobre a Apple, em maio de 2026, a Trellis — uma das organizações de referência internacional em pesquisa sobre profissionais de sustentabilidade — publicou o relatório “State of the Sustainability Profession 2026”. O dado central, divulgado no Brasil pelo ESG Inside: entre empresas que já haviam anunciado metas de sustentabilidade, 57% afirmam tê-las mantido, 24% dizem tê-las reforçado para 2026, e apenas 16% as enfraqueceram ou abandonaram.
Colocando as duas evidências lado a lado: casos concretos e visíveis de recuo em empresas americanas de altíssima exposição midiática — mas, na amostra agregada do mesmo período, mais de quatro em cada cinco empresas dizem estar mantendo ou reforçando seus compromissos. Isso não é uma contradição a ser resolvida escolhendo qual dado “está certo”. É um padrão: o que está em curso não parece ser uma retração generalizada do ESG, e sim uma seletividade — algumas peças específicas da agenda estão sendo removidas ou desvinculadas (especialmente as mais expostas, como metas atreladas a remuneração executiva, um ponto de contato direto entre sustentabilidade e o instrumento mais observado por investidores, imprensa e reguladores), enquanto o corpo mais amplo de metas operacionais segue de pé.
Uma hipótese — não uma conclusão
A partir dessas duas evidências, é possível formular uma hipótese fundamentada para o curto prazo (os próximos um a dois anos): grandes empresas não estão abandonando a agenda ESG, mas recalibrando qual parte dela merece exposição pública e formal — e qual parte pode continuar operando internamente, sem holofote. O que sai de cena primeiro é o que é mais simbólico e mais vulnerável a escrutínio político e jurídico (metas soltas, vínculos com bônus executivos, compromissos genéricos de marketing corporativo). O que permanece é o que já está embutido em processos que têm vida própria — contratos, exigências regulatórias, gestão de risco de cadeia de suprimentos — e que não desaparece só porque a comunicação institucional muda de tom.
É importante ser honesto sobre os limites dessa hipótese. Primeiro, causalidade não é a mesma coisa que correlação temporal: o fato de os dois eventos terem ocorrido no mesmo semestre de 2026 não prova que um decorre logicamente do outro — eles podem simplesmente refletir, cada um a seu modo, o mesmo pano de fundo político e econômico mais volátil nos Estados Unidos e no mundo.
Segundo, a amostra da Trellis é enviesada para empresas de maior porte (receita acima de US$ 1 bilhão) e depende de autorrelato — ou seja, “manter uma meta” no discurso de uma empresa pode não corresponder a manter o investimento ou a velocidade de execução por trás dela; não há, nesse dado, verificação independente de resultado.
Terceiro, uma leitura alternativa e igualmente plausível é que o que vemos hoje é só o primeiro estágio de um recuo mais lento — compromissos operacionais em andamento não se revertem da noite para o dia, mesmo quando a intenção estratégica já mudou, simplesmente porque contratos, sistemas de gestão e investimentos já feitos têm inércia própria. Ou seja: a continuidade que aparece no dado da Trellis pode ser sinal de maturidade seletiva, como propomos aqui, ou pode ser o efeito visível de decisões que ainda não tiveram tempo de se manifestar. As duas leituras são compatíveis com a mesma evidência, e só o tempo — e edições futuras desta coluna — vão permitir diferenciá-las com mais segurança.
Vale registrar também o contexto mais amplo que ajuda a explicar por que grandes empresas, em particular, estão em modo mais defensivo neste momento: 2026 tem sido marcado por volatilidade cambial relevante e por um ambiente geopolítico instável, o que naturalmente empurra a atenção de conselhos e diretorias para riscos mais imediatos de caixa, câmbio e continuidade operacional. Isso não explica sozinho a recalibração do ESG — seria simplificar demais atribuir uma causa única a um fenômeno multifatorial —, mas ajuda a entender por que a agenda de sustentabilidade das grandes companhias está, neste momento, competindo por atenção com prioridades que parecem mais urgentes no curto prazo.
O que isso significa na prática — e por que o tamanho da empresa muda a resposta
Essa recalibração não acontece do mesmo jeito, nem no mesmo ritmo, para todo mundo. E é aqui que a conversa deixa de ser sobre tendência global e passa a ser sobre a realidade concreta de cada empresa.
Para grandes empresas, o movimento que os dados sugerem não é “ESG saindo da agenda estratégica”, mas o oposto: ESG continua presente na mesa de decisão, só que com um filtro mais rigoroso sobre o que é levado adiante. O critério deixa de ser “isso projeta bem a marca” e passa a ser algo mais próximo de “isso reduz um risco identificável, atende a uma exigência regulatória concreta, ou é cobrado por quem financia ou compra de nós”. Isso não é declínio — é a agenda amadurecendo para um estágio em que sobrevive o que tem lastro funcional, e recua o que era mais discurso do que estrutura. É um aprendizado organizacional, não um abandono de convicção.
Para pequenas e médias empresas que fornecem para essas grandes companhias, porém, o efeito prático tende a ser praticamente o oposto de “alívio”. Levantamentos sobre compliance de cadeia de fornecedores no Brasil já apontam que questionários de due diligence, exigência de código de conduta, comprovação de treinamentos e cláusulas contratuais de integridade e sustentabilidade se tornaram rotina em contratações com grandes indústrias, instituições financeiras e empresas de capital aberto — e a expectativa é que esse tipo de exigência continue avançando, não recuando, nos próximos anos. Isso não é incoerência com o que está acontecendo lá em cima: é exatamente o que a hipótese anterior prevê.
Se o que sobrevive à recalibração das grandes empresas é o que está embutido em processo — e gestão de risco de fornecedores é, por definição, processo —, então a exigência ESG que chega até a PME pela cadeia de suprimentos tem boas razões estruturais para continuar, mesmo que a empresa-compradora tenha reduzido sua comunicação pública sobre sustentabilidade. É importante marcar, de novo, que isso é uma inferência lógica a partir do padrão observado, não um dado direto e mensurado sobre volume de exigências recebidas por PMEs brasileiras — essa medição específica, até onde a pesquisa disponível permite verificar, ainda não existe de forma consolidada.
Na prática, isso separa dois tipos de conversa que frequentemente são tratadas como uma só. Uma é sobre como grandes empresas devem repriorizar uma agenda ESG que já é madura e ampla — a pergunta ali é o que cortar e o que reforçar. A outra é sobre como PMEs, muitas vezes sem estrutura dedicada, devem se preparar para exigências que chegam de fora — via contrato, via edital, via cadeia — independentemente de como a manchete do dia descreve o momento do ESG nas gigantes americanas. Confundir as duas leva empresas menores a uma conclusão perigosa: a de que, se a Apple está recuando, a pressão sobre elas também vai diminuir. Os dados disponíveis até aqui não sustentam essa expectativa.
Esta é a primeira edição da coluna Futuro do ESG. A proposta aqui não é prever o futuro com certeza — é examinar, com rigor, o que a evidência disponível hoje permite formular como hipótese razoável, marcando com clareza onde essa hipótese é sólida e onde ainda é especulativa. Nas próximas edições, vamos olhar para horizontes mais largos — incluindo o que agendas internacionais de médio prazo sinalizam para os próximos anos — sempre com o mesmo compromisso: nem descartar o ESG como modismo em extinção, nem tratá-lo como certeza inevitável.
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