Como Fazer o Inventário de Emissões de GEE da Empresa Segundo o GHG Protocol

Se a pergunta que trouxe você até aqui é “como fazer o inventário de emissões de GEE da minha empresa”, a resposta direta é: aplique a metodologia do GHG Protocol, meça os Escopos 1, 2 e 3, e submeta os dados ao Programa Brasileiro GHG Protocol (PBGHG) caso queira um registro público reconhecido. Mas essa resposta curta esconde a parte que realmente determina se o inventário da sua empresa terá algum valor prático: onde a maioria das organizações erra, o que o método não resolve sozinho e por que, mesmo sem obrigação regulatória em vigor, um número recorde de empresas brasileiras continua fazendo isso.

Em 2025, o PBGHG — programa criado em 2008 pela FGV EAESP em parceria com o WRI Brasil e o Cebds — registrou 757 organizações no ciclo do ano, alta de 12% sobre as 670 do ciclo anterior e o maior número da história do programa (Diário do Comércio, com dados da FGV). Juntas, essas empresas reportaram 213 milhões de toneladas de CO2e em Escopo 1, 8,1 milhões de toneladas em Escopo 2 e 1,18 bilhão de toneladas em Escopo 3 — um primeiro dado que já desmonta qualquer inventário simplificado: o Escopo 3 sozinho responde por mais de 80% do total declarado por essas empresas, e é justamente a parcela mais difícil de medir com precisão.

O que o GHG Protocol realmente pede — e o que ele deixa em aberto

O GHG Protocol Corporate Standard, desenvolvido pelo WRI e pelo WBCSD, organiza as emissões em três escopos: Escopo 1 (emissões diretas, de fontes controladas pela empresa, como frota própria e combustão em processos), Escopo 2 (emissões indiretas da energia elétrica comprada) e Escopo 3 (todas as demais emissões indiretas na cadeia de valor — de insumos comprados a uso de produtos vendidos, em 15 categorias possíveis). Até aqui, é a parte do método que qualquer material introdutório sobre ESG já explica.

O que costuma ficar de fora é que “ter um inventário” e “ter um inventário verificado” são coisas diferentes — e a diferença importa para quem vai usar esse dado para tomar decisão. O PBGHG classifica os inventários em três níveis: Bronze (inventário parcial), Prata (inventário completo dos Escopos 1 e 2) e Ouro (inventário completo, incluindo Escopo 3, com verificação por Organismo de Verificação acreditado pelo Inmetro) (EAESP-FGV, Ciclo 2025). Isso significa que dois inventários “registrados no GHG Protocol” podem ter níveis de robustez completamente diferentes — um selo público de participação não equivale, por si só, a uma auditoria independente dos números. Quem lê um relatório de sustentabilidade de terceiros (um fornecedor, um investido, um concorrente) deveria perguntar em qual nível ele foi classificado antes de tratar o dado como comparável.

Onde as empresas mais erram — e não é na coleta do Escopo 1

Medir Escopo 1 e Escopo 2 é um problema relativamente resolvido: são dados operacionais, geralmente já monitorados para fins fiscais ou de eficiência energética, com fatores de emissão bem documentados. O ponto onde a maioria dos inventários apresentam limitações é o Escopo 3, e por um motivo estrutural, não apenas de esforço: a empresa depende de dados que não controla, vindos de fornecedores, transportadoras e clientes que muitas vezes não medem nada.

Um relatório do CDP publicado em setembro de 2024 mostra a dimensão do problema: as emissões da cadeia de suprimentos corporativa são, em média, 26 vezes maiores que as emissões operacionais diretas das empresas — e ainda assim menos de 1 em cada 10 empresas (8%) trata a cadeia de suprimentos com iniciativas efetivas de redução (CDP, “Cadeia de suprimentos”, 2024).

Na prática, isso empurra a maioria das empresas a preencher as categorias de Escopo 3 com fatores de emissão genéricos — médias setoriais ou nacionais aplicadas sobre valores financeiros ou volumes de compra — em vez de dados primários coletados diretamente dos fornecedores. É uma escolha metodologicamente válida e prevista pelo próprio GHG Protocol, mas que carrega uma margem de erro real e pouco discutida: fator genérico não captura a intensidade de carbono específica daquele fornecedor, daquele processo ou daquela região. Tratar um inventário construído majoritariamente com fatores genéricos como se tivesse a mesma precisão de um inventário com dados primários é um erro comum — e evitável — de quem está começando.

Por que empresas continuam fazendo isso mesmo sendo voluntário

Aqui vale uma correção de narrativa. A Resolução CVM 193, de outubro de 2023, previa que a divulgação de relatórios financeiros relacionados à sustentabilidade (nos padrões CBPS 01 e 02, equivalentes às normas IFRS S1 e S2) se tornaria obrigatória para companhias abertas a partir de exercícios iniciados em 1º de janeiro de 2026. Em maio de 2026, porém, a CVM editou a Resolução 244, revogando essa obrigatoriedade: o relato voltou a ser voluntário, com um mecanismo de “pratique ou explique” a partir de 2027 — quem optar por não reportar precisa justificar publicamente essa decisão — e a exigência de que quem adere ao relato voluntário mantenha por, no mínimo, três exercícios consecutivos (Mattos Filho).

É tentador ler isso como “a pressão regulatória sumiu, então o inventário perdeu urgência”. Os números não sustentam essa leitura. O PBGHG cresceu de forma consistente desde 2008 — muito antes de qualquer obrigatoriedade da CVM ter existido ou sido revogada — e o recorde de 2025 aconteceu num momento em que a obrigatoriedade futura já estava sendo questionada no mercado.

O que parece explicar a adesão não é o texto da resolução, mas pressões que não desaparecem com uma mudança regulatória: exigência de fornecedores por parte de grandes compradores, critérios de linhas de crédito vinculadas a desempenho climático, questionários de investidores (o próprio CDP é um deles) e, cada vez mais, a comparação direta entre concorrentes que reportam e os que não reportam. Tratar a decisão da CVM como a variável que explica o comportamento das empresas é simplificar uma causalidade que, pelos dados disponíveis, não se sustenta.

Medir emissões não é reduzir emissões

Esse é o ponto mais frequentemente borrado em conteúdos sobre o tema: fazer o inventário é um exercício de diagnóstico, não de mitigação. Ele não reduz nada por si só — apenas produz a informação necessária para que uma meta de redução seja definida com algum rigor. Os próprios dados do ciclo 2025 do PBGHG ilustram esse hiato: o setor de agropecuária, floresta e pesca teve 62 organizações participantes, alta de 38% em relação ao ano anterior — mas essas empresas ainda representam apenas 0,8% das emissões diretas do setor no Brasil (Diário do Comércio). Um crescimento percentual expressivo, sobre uma base de cobertura ainda muito pequena, não equivale a um setor “resolvendo” sua pegada de carbono — equivale a mais empresas começando a medi-la.

O mesmo levantamento identificou, entre as empresas participantes, os principais obstáculos declarados para avançar de fato na redução de emissões: viabilidade financeira e custo (apontado por 50% das respondentes), maturidade tecnológica (40%) e desafios da transição energética (32%). Esses números, lidos ao lado do recorde de inscrições, contam uma história mais completa do que a manchete de “recorde de inventários”: a medição está avançando mais rápido do que a capacidade concreta das empresas de agir sobre o que ela revela. Isso não invalida o inventário — ele continua sendo pré-requisito para qualquer plano de descarbonização minimamente sério — mas invalida a ideia de que publicar um inventário, por si só, indica progresso na redução de emissões.

O que isso significa na prática

Para uma empresa que está começando, o ganho real não está em seguir um roteiro genérico de etapas — definir limites organizacionais, escolher o ano-base, mapear fontes de emissão, aplicar fatores, consolidar — que qualquer manual do GHG Protocol já descreve em detalhe. O ganho está em decisões que esse roteiro não toma por você: até onde vale investir em dados primários de fornecedores em vez de fatores genéricos antes de reportar aquele número como confiável; qual nível de verificação (Bronze, Prata ou Ouro) faz sentido para o estágio atual da empresa e para quem vai consumir esse relatório; e, principalmente, tratar o primeiro inventário como início de um processo de gestão de dados — que vai precisar de auditoria interna, engajamento de fornecedores e revisão de metodologia nos ciclos seguintes — e não como uma peça de comunicação que se encerra no dia da publicação.

Fontes

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