A terra já não basta… e se o futuro flutuar?

Protótipos de cidades flutuantes prometem um território novo, sem passivo e sem herança. Em Atafona, no norte fluminense, 180 metros de praia desapareceram em trinta anos — e a causa não é o mar. A distância entre as duas cenas não é de engenharia. É de governança.

Como pensar no futuro da Sustentabilidade? — coluna às segundas e quartas


Atafona é um distrito de São João da Barra, no norte fluminense, e continua sendo uma cidade habitada — com comércio, escola, temporada de verão e moradores que ficaram. É também o lugar onde a linha de praia recuou cerca de 180 metros em pouco mais de trinta anos, o equivalente a três quarteirões. Famílias que perderam a casa reconstruíram uma quadra adiante e perderam de novo; algumas em quatro endereços diferentes. Ruas inteiras saíram do cadastro. A Ilha da Convivência, que abrigava cerca de 300 famílias, deixou de existir como ilha.

Do outro lado do mundo, o mesmo oceano recebe outro tipo de resposta. Em 26 de abril de 2022, o ONU-Habitat, a Prefeitura Metropolitana de Busan, a empresa Oceanix e o escritório BIG–Bjarke Ingels Group apresentaram, na sede das Nações Unidas em Nova York, o OCEANIX Busan: 6,3 hectares, três plataformas hexagonais ancoradas, capacidade projetada para 12 mil moradores, geração de 100% da energia operacional no próprio local. Nas Maldivas, a holandesa Dutch Docklands desenvolve, em parceria com o governo, uma cidade flutuante para cerca de 20 mil pessoas em uma lagoa a dez minutos de barco de Malé.

A assimetria entre as duas cenas é de atenção, antes de ser de orçamento. Busan e Malé têm maquete eletrônica, escritório de arquitetura premiado, investidor e cerimônia em Nova York; Atafona tem laudo técnico e processo administrativo. Uma das respostas circula em alta resolução por veículos de arquitetura, conferências e apresentações institucionais; a outra aparece em reportagem local e volta a sumir. Vale reter esse desequilíbrio, porque ele antecede — e em boa medida explica — o desequilíbrio de recursos que vem depois.

Mas por que ainda não vimos uma cidade flutuante?

O histórico é instrutivo. O Freedom Ship, embarcação-cidade para 80 mil pessoas, segue em planejamento há décadas, travado por custo estimado em US$ 16 bilhões. O projeto de seasteading na Polinésia Francesa foi cancelado: o memorando com o governo expirou no fim de 2017 diante de oposição política e resistência local. O MS Satoshi foi descontinuado por obstáculos regulatórios, operacionais e de seguro. O Pangeos exigiria a construção de um estaleiro inteiro antes do primeiro rebite.

Os obstáculos recorrentes não são de engenharia naval. São financeiros, regulatórios e jurisdicionais: quem licencia, quem fiscaliza, quem responde, quem segura, sob que lei, em que território. A engenharia sabe fazer flutuar. O problema é que a governança não sabe onde arquivar o processo.

O caso de Busan merece precisão. O cronograma divulgado em novembro de 2021 previa início de obras em 2022 e entrega do protótipo em 2025, com custo inicial estimado em US$ 200 milhões. O anúncio oficial de abril de 2022 não reiterou data de entrega. Chegamos a setembro de 2026 sem registro público de protótipo entregue e, mais revelador, sem que a ausência tenha gerado repercussão remotamente comparável à do lançamento. A promessa circula com força muito maior do que a prestação de contas sobre ela.

a elevação do nível do mar em números

A elevação do nível médio do mar deixou de ser projeção e virou série histórica. Segundo o WMO Bulletin (v. 74, n. 2, 2025), o nível médio global subiu cerca de 20 centímetros desde o início do século XX, a uma taxa média de 3,4 mm/ano entre 1993 e 2024 — mas de 4,7 mm/ano na década 2014–2023, e de 5,9 mm somente em 2024. A curva não é uma reta: é uma aceleração. Para 2100, o intervalo provável (17º–83º percentil), considerando todos os cenários climáticos, está entre 0,4 e 1 metro, e a comunidade científica não descarta 2 metros como cenário de baixa probabilidade e alto impacto, a depender da dinâmica dos mantos de gelo antárticos.

O que isso significa em ativos construídos foi medido em agosto de 2025 por Willard-Stepan, Gomez, Cardille, Galbraith e Bennett na npj Urban Sustainability (v. 5, art. 72). Avaliando 840 milhões de edificações na África, no Sudeste Asiático e na América do Sul e Central, o estudo encontra cerca de 3 milhões de edifícios expostos a apenas 0,5 m de elevação e aproximadamente 45 milhões a 5 metros. A América do Sul aparece com inundação continental expressiva na região do Rio da Prata.

É um estoque de risco físico maior do que qualquer orçamento de adaptação hoje existente. E é exatamente aí que a cidade flutuante entra como promessa — e precisa ser examinada com a mesma frieza com que se examina um plano de negócios.

o mar de Atafona não é o vilão

Aqui a história se dobra sobre si mesma. A erosão de Atafona não é causada, principalmente, pela elevação do nível do mar. A causa dominante está a mais de trezentos quilômetros dali, terra adentro.

O rio Paraíba do Sul perdeu mais de 60% de sua descarga líquida ao longo do século passado. A Elevatória de Santa Cecília, construída em 1952, desvia aproximadamente dois terços da vazão do rio para o Sistema Hídrico do Guandu — que abastece a Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Sem água, não há sedimento. Sem sedimento, o delta para de se reconstruir, e o mar apenas recolhe o que o rio deixou de repor.

O que se vê em Atafona não é o oceano avançando sobre a terra. É a cobrança de uma decisão hidráulica tomada há setenta anos, em outra bacia, para manter as torneiras de outra cidade abertas.

E há uma segunda camada, ainda mais desconfortável para quem trabalha com governança: a orla é bem da União, sob gestão da Secretaria de Patrimônio da União. O município não pode intervir sozinho na própria praia. Em abril de 2025, São João da Barra abriu edital para um estudo técnico da erosão; em maio, a licitação estava embargada, sem data de republicação. Enquanto isso, a linha de costa recua até cinco metros por ano em alguns trechos. Nenhuma plataforma hexagonal ancorada resolve uma barragem de 1952, uma competência federal e um edital parado.

O que as cidades flutuantes ensinam?

Recusar a fuga não é recusar a invenção — e seria um erro caro descartar as cidades flutuantes como delírio. Elas resolvem problemas reais, e alguns deles melhor do que a engenharia costeira convencional. O que se separa aqui é a ideia do endereço. Quatro coisas nesses projetos são portáteis, e nenhuma exige território novo.

Acomodar em vez de resistir. O muro, o enrocamento e o quebra-mar operam por oposição: seguram a água. A plataforma opera por acomodação: sobe junto. É uma inversão de doutrina que a engenharia holandesa já institucionalizou em terra firme sob o nome de “espaço para o rio” — recuar diques para devolver planície de inundação, em vez de erigi-los mais altos.

Modularidade em vez de grandes obras definitivas. O projeto de Busan cresce por módulos, e cada incremento é uma decisão que pode ser revisada diante de um dado novo. Adaptação costeira feita como obra única de trinta anos aposta tudo em uma única projeção; feita em módulos, ela aprende no caminho — que é o único modo honesto de agir sob incerteza climática.

Metabolismo na escala do bairro. Energia, água e resíduo tratados como um sistema fechado no quarteirão, e não na cidade. Isso já existe fora do render: o bairro flutuante Schoonschip, em Amsterdã, reúne 46 residências com rede elétrica própria, geração solar, baterias, bombas de calor e troca de energia entre vizinhos sob uma única conexão pública. É pequeno de propósito — e existe justamente por ser pequeno.

Estrutura viva e regenerativa. As plataformas são desenhadas para incorporar substratos que favorecem a formação de recife e a fixação de biomassa marinha, em vez de esterilizar o fundo. A infraestrutura deixa de ser inerte: ela ganha função com o que se instala nela, e passa a depender disso para funcionar bem.

Permanecer como método de governança

A pergunta que esta coluna propõe não é se cidades flutuantes são tecnicamente viáveis. Algumas são, e as boas ideias delas são melhores do que a conversa que as cerca. A pergunta é outra:

Quando o futuro se apresenta como plataforma nova, quem paga a conta do território antigo?

Em Atafona, as quatro ideias têm endereço. Acomodar em vez de resistir significa recolocar a vazão e o transporte de sedimentos do Paraíba do Sul dentro da equação da adaptação costeira, em vez de tratar a erosão apenas na linha da praia. Modularidade significa intervenções revisáveis a cada ciclo de monitoramento, não uma obra única de década. Metabolismo de bairro significa tratar água, energia e resíduo do que ainda está de pé como um sistema, e não como três contratos separados. Estrutura viva e regenerativa significa avaliar qualquer obra costeira ali também por quanto habitat ela cria — e não apenas por quantos metros ela segura.

Resta a parte que nenhuma delas resolve sozinha, e que é a mais barata de todas: destravar a competência entre União e município antes de destravar o edital, e tratar sedimento como serviço ecossistêmico com dono, valor e responsável.

É aí que se separa a imaginação do futuro da governança do futuro. O primeiro precisa de um território limpo para funcionar. A segunda trabalha no território que existe, com o passivo que ele tem, com os vizinhos humanos e não humanos que já estão lá — e é, por isso, muito mais difícil de desenhar e muito mais barata de errar.


Na próxima coluna: os Estados Unidos desregulam, a China regula — e nenhum dos dois está governando a parte da inteligência artificial que consome água, energia e território. O Brasil, que ainda não tem lei de IA, acabou de aprovar a lei dos data centers.

E você: entre construir o novo sobre a água e reparar o antigo em terra firme, qual dos dois seu município, sua empresa ou seu conselho está efetivamente financiando? Comente abaixo.

Referências

  • WILLARD-STEPAN, M.; GOMEZ, N.; CARDILLE, J. A.; GALBRAITH, E. D.; BENNETT, E. M. “Assessing the exposure of buildings to long-term sea level rise across the Global South”. npj Urban Sustainability, v. 5, art. 72, 29 ago. 2025. DOI: 10.1038/s42949-025-00259-z
  • WORLD METEOROLOGICAL ORGANIZATION. “Future Sea-level Rise Is Certain, but the Amount and Speed Are Uncertain”. WMO Bulletin, v. 74, n. 2, 2025.
  • UN-HABITAT. “UN-Habitat and partners unveil OCEANIX Busan, the world’s first prototype floating city”, 27 abr. 2022.
  • ((o))eco. “Enquanto o rio morre, o mar avança: o caso de Atafona”.
  • SCHOONSCHIP AMSTERDAM / SPECTRAL. Documentação do bairro flutuante e da rede elétrica comunitária.
  • BRASIL. Comitê Interministerial sobre Mudança do Clima. Plano Clima, aprovado em 15 dez. 2025.
  • NEWSWEEK. “A Mile-Long Ship for 80,000 People? Why Floating Cities Never Get Built”.

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