Em 30 de junho de 2026, delegados de dezenas de países voltaram a se sentar numa sala em Nairóbi para falar sobre plástico. Não era uma negociação formal — o embaixador chileno Julio Cordano, que preside o processo, chamou o encontro de sessão informal de “brainstorming“, a primeira reunião presencial desde que as tratativas colapsaram em Genebra quase um ano antes.
À primeira vista, o simples fato de as delegações terem voltado a se falar já foi tratado por parte da imprensa e de organismos multilaterais como um sinal de retomada do diálogo. Mas um detalhe na pauta que Cordano preparou para aquele encontro revela o tamanho real do impasse: os limites à produção de plástico — o ponto mais disputado de todo o processo — simplesmente não constavam da lista oficial de temas. Cordano insistiu que “nenhum tópico está fora da mesa” e convidou os países a apresentar propostas, mas a omissão bastou para acender o alarme entre organizações ambientais presentes em Nairóbi, como a Environmental Investigation Agency (EIA), cuja diretora de políticas, Christina Dixon, resumiu o clima da sala dizendo que a produção estava sendo descartada como um tema “complicado demais e politicamente inviável”.
Essa distância entre a retórica institucional — “diálogo restabelecido”, “caminho previsível”, nas palavras do próprio Cordano — e o conteúdo real do que está sendo discutido é o fio que atravessa todo o processo do tratado global de plásticos desde seu colapso em agosto de 2025. E é também a chave para entender por que esse imbróglio diplomático, aparentemente distante do dia a dia de uma empresa brasileira, tem implicações diretas sobre custo de capital, exposição regulatória e cadeia de suprimento de setores que vão muito além da indústria química.
Um ano de paralisia, quatro meses sem presidente
Para entender o tamanho da crise, vale reconstituir a linha do tempo. Em agosto de 2025, a quinta rodada do Comitê Intergovernamental de Negociação (a chamada INC-5.2) reuniu 183 países e mais de 1.400 delegados em Genebra ao longo de dez dias — e terminou sem acordo. A então diretora-executiva do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), Inger Andersen, descreveu a rodada como marcada por “complexidades geopolíticas, desafios econômicos e tensões multilaterais”, segundo o registro oficial da ONU Brasil.
O impacto foi tão profundo que o então presidente das negociações, o embaixador equatoriano Luis Vayas Valdivieso, renunciou ao cargo em 31 de outubro de 2025. O posto ficou vago por quatro meses — um vácuo de liderança em um processo que a própria ONU classifica como prioritário — até que Cordano fosse eleito em 7 de fevereiro de 2026, em Genebra, na sessão batizada de INC-5.3, segundo reportagem do Eco-Business.
Foi só em março de 2026 que Cordano apresentou um roteiro para tentar reanimar o processo: uma série de reuniões informais ao longo do ano, consultas virtuais a cada quatro ou seis semanas entre chefes de delegação, e a promessa de uma nova sessão formal de negociação — hoje marcada para 13 a 24 de março de 2027 — na qual ele deve apresentar um novo texto de tratado, construído a partir das propostas que os países foram apresentando nesse intervalo, de acordo com a Climate Home News.
O encontro de Nairóbi em junho foi o primeiro capítulo presencial desse roteiro. Em agosto, Cordano circulou um “documento de referência informal” com elementos do que poderia compor o texto final — e a reação de organizações ambientais e de vários países foi de decepção. A EIA classificou o rascunho como um retrocesso em relação a versões anteriores: “recuamos em vez de avançar”, segundo a organização, citando a mesma reportagem da Climate Home News. Artigos independentes sobre metas de redução de produção, presentes em versões de 2024, desapareceram das versões sucessivas do texto; a única menção que sobrou é a palavras “produção sustentável” no preâmbulo, sem definição operacional nem meta numérica.
O racha que não é sobre plástico — é sobre petróleo
Vale destacar por que o tema da produção é tão explosivo a ponto de travar um processo diplomático por anos. Praticamente todo plástico do planeta deriva de petróleo, gás natural ou carvão — o que significa que um tratado que limitasse a produção de plástico seria, na prática, um instrumento de restrição à demanda por combustíveis fósseis, ainda que negociado sob o guarda-chuva da poluição ambiental e não do clima.
Um bloco liderado por Estados Unidos, Arábia Saudita, Rússia e Índia resiste a qualquer limite de produção e defende que o tratado trate exclusivamente da gestão de resíduos — reciclagem, coleta, disposição final. O Departamento de Estado americano tem defendido publicamente “soluções práticas e de custo eficiente”, em oposição a “banimentos globais de plástico”. Do outro lado, a maioria dos países da União Europeia, América Latina, África e das ilhas do Pacífico defende cortes na produção para níveis considerados sustentáveis. A França alertou, na reunião de Nairóbi, que ignorar a “natureza insustentável” da produção deixaria o tratado “fundamentalmente desequilibrado e ineficaz”, enquanto o delegado da Micronésia, Dennis Clare, argumentou que não enfrentar a superprodução agravaria os impactos climáticos e de saúde — posições registradas pela Climate Home News.
É importante não simplificar esse racha como uma disputa entre “países ricos poluidores versus países pobres vítimas” — a coalizão que defende limites de produção inclui nações de renda média e baixa desproporcionalmente expostas a resíduos plásticos importados e a impactos costeiros, enquanto o bloco resistente reúne tanto potências desenvolvidas quanto emergentes cujo denominador comum não é renda, mas dependência de receita petroquímica.
E vale registrar a incerteza real: o texto final do tratado ainda não existe. O documento de agosto de 2026 é uma referência informal, sujeita a nova rodada de revisão após reunião de negociadores-chefe prevista para Bangcoc no fim de setembro de 2026, antes de chegar à sessão formal de março de 2027. Ninguém — nem os próprios negociadores — sabe hoje se esse encontro produzirá um tratado ambicioso, um acordo mínimo sobre resíduos, ou um novo impasse. Especialistas também divergem sobre se, na ausência de um teto global de produção, as iniciativas regionais e nacionais que já estão em curso seriam suficientes para conter a trajetória de crescimento do setor — um ponto ao qual voltamos adiante.
Por que isso interessa a empresas que não fabricam um grama de plástico
A tentação é tratar esse imbróglio como um assunto de diplomacia ambiental distante da operação de uma empresa de bens de consumo, de uma exportadora de alimentos ou de uma gestora de fundos. É um erro. O primeiro efeito prático da paralisia do tratado global já está em curso, e não depende do resultado de março de 2027 para se manifestar: a fragmentação regulatória. Na ausência de um padrão único negociado multilateralmente, cada bloco e cada país está avançando com suas próprias regras — em ritmos, critérios técnicos e prazos diferentes entre si, criando exatamente o cenário mais custoso para uma empresa com operação ou vendas em múltiplas jurisdições: conformidade sob medida, país a país.
O caso europeu, já em vigor
O exemplo mais avançado é o Regulamento de Embalagens e Resíduos de Embalagens da União Europeia (PPWR), que entrou em vigor em 12 de agosto de 2026 e se aplica também a produtos importados, conforme o resumo oficial do EUR-Lex. Desde já, valem regras de segurança química vinculantes — banimento de PFAS em embalagens em contato com alimentos e limite de 100 mg/kg para metais pesados como chumbo, cádmio e mercúrio — além da exigência de um dossê técnico com laudos analíticos e declaração de conformidade retida por cinco a dez anos, segundo análise do Food Safety Brazil. A partir de janeiro de 2030, todas as embalagens comercializadas na UE precisarão atingir classificação mínima de reciclabilidade e cumprir cotas de conteúdo reciclado pós-consumo — 30% para PET, 10% para os demais plásticos em contato alimentar.
Para exportadores brasileiros, o efeito já é concreto, não projetado. Segundo análise da CZ Analytics, o setor de café enfrenta o desafio de substituir embalagens multicamadas de plástico e alumínio — hoje padrão para preservar o produto — por alternativas recicláveis, com empresas como Catarina Café e Tres Corações já investindo em filmes monomaterial de polietileno com barreiras de álcool vinílico. No setor de carnes, o nylon usado como barreira de proteção será proibido por sua complexidade de reciclagem, levando frigoríficos como JBS Ambiental e Minerva a desenvolver alternativas em polietileno. Não se trata de um cenário hipotético de “o que aconteceria se o tratado global fosse ambicioso” — é uma obrigação já em vigor, negociada bilateralmente entre Bruxelas e cada exportador, na completa ausência de um piso regulatório internacional que pudesse harmonizar essas exigências entre destinos de exportação.
O Brasil também está regulando sozinho
E não é só a Europa que está agindo à revelia do processo multilateral. Em 21 de outubro de 2025 — poucos meses depois do colapso em Genebra —, o governo brasileiro publicou o Decreto 12.688/2025, que institui um sistema obrigatório de logística reversa para embalagens plásticas no país, com responsabilidade compartilhada entre fabricantes, importadores, distribuidores e consumidores, conforme detalha a Lema Ambiental.
O decreto estabelece metas anuais e crescentes até 2040 para dois indicadores — índice de recuperação de embalagens e índice de conteúdo reciclado —, exige comprovação documental via nota fiscal, Manifesto de Transporte de Resíduos e relatórios anuais ao Sinir, e prevê multas com base na Lei de Crimes Ambientais para quem não cumprir. Ou seja: enquanto a diplomacia internacional debate se deve sequer discutir limites de produção, o Brasil já criou sua própria obrigação regulatória doméstica de responsabilidade estendida do produtor — que qualquer empresa que coloca embalagem plástica no mercado nacional já precisa cumprir, independentemente do que sair (ou não sair) de março de 2027.
Esse padrão — Europa regulando por um lado, Brasil por outro, Estados Unidos por um terceiro caminho estadual fragmentado, sem um piso comum internacional — é precisamente o resultado mais provável, e mais custoso, do fracasso continuado do tratado global. Um acordo internacional bem-sucedido tende a funcionar como um piso comum que reduz a variação de exigências entre jurisdições; sua ausência empurra empresas com operação multinacional a administrar dezenas de regimes distintos simultaneamente, cada um com seus próprios prazos, definições técnicas de reciclabilidade e formatos de comprovação.
A incerteza que já pesa sobre a petroquímica
Do lado da oferta, o setor petroquímico enfrenta uma equação que vai além do desfecho do tratado — mas que o tratado ajuda a tensionar ainda mais. Um relatório da Carbon Tracker Initiative estima que US$ 400 bilhões em investimentos petroquímicos planejados estão em risco nos próximos cinco anos, num contexto em que o crescimento da demanda por plástico virgem pode desacelerar de cerca de 4% ao ano para menos de 1%, com pico de demanda projetado já para 2027.
É importante não inverter a causalidade aqui: esse quadro de excesso de capacidade e preços deprimidos de matéria-prima já vem se formando por razões anteriores e independentes do tratado — sobretudo a expansão acelerada de capacidade petroquímica na China e a desaceleração da demanda global —, e não como consequência direta do impasse diplomático. O que o resultado (ou a falta de resultado) das negociações faz é adicionar uma camada extra de incerteza regulatória de longo prazo sobre um setor que já opera com margens pressionadas e capacidade ociosa, tornando ainda mais difícil para investidores precificar o valor terminal de novas plantas.
A Carbon Tracker calcula ainda que a produção de plástico emite hoje cerca de 1,75 gigatonelada de CO2 por ano — o dobro por tonelada em relação à simples extração de petróleo —, volume que poderia dobrar para 3,5 gigatoneladas até meados do século se as taxas atuais de crescimento persistirem, o que conecta diretamente a trajetória do tratado de plásticos às metas climáticas que muitas dessas mesmas empresas já assumiram publicamente.
Essa tensão entre metas climáticas corporativas e dependência estrutural de plástico como pilar de demanda futura para o petróleo — a chamada “aposta plástica” da indústria de óleo e gás, à medida que a demanda por combustíveis para transporte desacelera — é hoje citada por analistas como um dos principais fatores de risco de ativo encalhado (stranded asset) do setor de energia para a próxima década. Isso não significa que o tratado, isoladamente, determine esse desfecho; significa que empresas com exposição a feedstock petroquímico — seja como compradoras de resina, seja como financiadoras de capacidade nova — precisam monitorar esse processo como parte de sua análise de risco de transição, não como uma nota de rodapé ambiental.
Litígio e devida diligência já não esperam o tratado
Um terceiro vetor de risco corre em paralelo à diplomacia: o litígio. O Plastics Litigation Tracker já cataloga dezenas de ações judiciais em curso contra empresas petroquímicas, de bebidas e de bens de consumo — de ações por poluição e nuisance pública contra a ExxonMobil, passando por processos por alegações enganosas de reciclabilidade contra fabricantes como a Reynolds Consumer Products, até disputas sobre responsabilidade estendida do produtor movidas por associações setoriais contra estados americanos. Esse tipo de exposição não depende de o tratado global sair do papel: reguladores estaduais, procuradores públicos e organizações da sociedade civil já estão testando, em tribunais, a responsabilidade de empresas por alegações de sustentabilidade em embalagens e pela poluição gerada ao longo do ciclo de vida do plástico.
Para uma empresa de bens de consumo, isso significa que a due diligence sobre alegações ambientais em rótulos e relatórios de sustentabilidade — o chamado risco de greenwashing — já é uma exigência de gestão de risco reputacional e jurídico independente do calendário de Bangcoc ou de março de 2027.
O que fica claro — e o que continua em aberto
Há um fio que conecta a sala de reuniões em Nairóbi, o corpo humano e o balanço de uma empresa exportadora brasileira, e vale nomeá-lo com precisão. Microplásticos já foram identificados em ecossistemas remotos, no ar, na água — e também em sangue humano e, mais recentemente, em placentas e tecidos fetais, incluindo o primeiro registro desse tipo em gestações brasileiras, documentado por pesquisadores em artigo publicado na PMC/National Library of Medicine.
A Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) projeta que, sem intervenção, a produção e o descarte de plástico podem quase triplicar até 2060, segundo seu Global Plastics Outlook — projeção reafirmada no próprio documento de referência que Cordano circulou em agosto de 2026. Essa é a urgência material por trás do processo. Mas classificar dez meses de reuniões informais como “retomada do diálogo” sem examinar o que ficou de fora da pauta é aceitar a narrativa institucional pelo valor de face, quando a evidência disponível — a ausência dos limites de produção do texto oficial de junho, o recuo identificado por organizações ambientais no rascunho de agosto — sugere algo mais próximo de uma gestão cuidadosa de expectativas do que de um avanço substantivo.
Isso não torna março de 2027 irrelevante — ao contrário, é a data que determinará se o mundo terá, pela primeira vez, um piso regulatório comum para o ciclo de vida do plástico ou se cada jurisdição seguirá construindo seu próprio regime, como já fazem hoje a União Europeia e o próprio Brasil. Mas nenhuma empresa exposta a embalagens plásticas — como compradora, como exportadora ou como financiadora de capacidade petroquímica — deveria esperar esse desfecho para agir. O regime que já vale, na prática, é o mosaico fragmentado que está se formando agora, regra por regra, decreto por decreto, enquanto os diplomatas ainda debatem o que pode ou não entrar na pauta.
Fontes
- Climate Home News — “UN plastics pact talks restart amid fears production curbs will be left out” (30/06/2026)
- Climate Home News — “‘We’ve gone backwards’ – new plastics treaty text dims hopes for production curbs” (12/08/2026)
- Climate Home News — “Roadmap launched to restart deadlocked UN plastics treaty talks” (18/03/2026)
- ONU Brasil — “Negociações sobre tratado global de poluição plástica são suspensas sem consenso” (15/08/2025)
- Eco-Business — “Chile’s Julio Cordano elected chair of UN plastic pollution treaty talks” (fevereiro de 2026)
- Let’s Recycle — “Plastic production to triple by 2060, says OECD” (OCDE, Global Plastics Outlook)
- PMC/NIH — “First evidence of microplastic accumulation in placentas and umbilical cords from pregnancies in Brazil”
- Carbon Tracker Initiative — “Oil industry betting future on shaky plastics as world battles waste”
- EUR-Lex — “Embalagens e resíduos de embalagens (a partir de 2026)” (PPWR)
- Food Safety Brazil — “O impacto do Novo Regulamento Europeu de Embalagens (PPWR) para exportadores de alimentos”
- CZ Analytics — “How will the EU’s new packaging regulation impact Brazil?”
- Lema Ambiental — “Logística Reversa de Embalagens Plásticas (Decreto 12.688/2025)”
- Plastics Litigation Tracker


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