Esta é a segunda edição da nossa coluna de quinta-feira “Futuro do ESG”. Na primeira, publicada em 10 de setembro, olhamos para o curto prazo — o que muda nos próximos um ou dois anos de relatórios e conformidade. Hoje mudamos a lente: e se olharmos para os próximos três a oito anos? Não para prever o futuro com precisão — ninguém pode — mas para construir, a partir de evidências concretas e verificáveis de hoje, uma hipótese fundamentada sobre para onde a agenda climática e regulatória está caminhando, e o que isso significa para quem toma decisões de negócio agora.
Duas evidências que, juntas, contam uma história
A primeira evidência veio da COP30, realizada em Belém em novembro de 2025. O resultado foi genuinamente ambíguo. Por um lado, o “Pacote de Belém” foi aprovado por consenso entre 195 países, com 29 decisões que incluem o compromisso de triplicar o financiamento de adaptação até 2035 e um mecanismo de transição justa — um sinal de que o multilateralismo climático, embora fragilizado, ainda produz algo.
Por outro lado, a conferência terminou sem incluir no texto principal um roteiro (roadmap) vinculante de saída dos combustíveis fósseis, apesar de cerca de 82 países terem pressionado por isso. A União Europeia chamou o resultado de “oportunidade perdida”, e uma articuladora ambiental descreveu o pacote como “o mínimo denominador comum, portanto fraco”. Em paralelo — fora do texto oficial — surgiu o “Mutirão Global”, uma plataforma voluntária de iniciativas paralelas, diálogos setoriais e coalizões lideradas pela presidência brasileira, sem força vinculante.
A segunda evidência não veio de uma conferência política, mas de um documento técnico usado por reguladores financeiros: os cenários climáticos da NGFS (Network for Greening the Financial System), publicados na mesma janela de tempo, novembro de 2025. A NGFS organiza sete cenários de longo prazo em quatro famílias, cruzando risco de transição (o custo de descarbonizar) com risco físico (o custo dos danos climáticos).
O cenário “Fragmented World” está na família “Too Little Too Late” — o pior quadrante, com risco de transição médio-a-alto e risco físico alto simultaneamente. A descrição oficial é direta: países com metas de zero líquido cumprem só parcialmente seus compromissos, enquanto outros seguem políticas atuais; a divergência regional de precificação de carbono gera “distorções internacionais”; e a ação fragmentada é “mais cara, mais intensiva em carbono e menos equitativa entre regiões” do que uma transição coordenada.
É importante ser preciso aqui: essas duas evidências não são a mesma coisa, e uma não causou a outra. A NGFS não desenhou seu cenário “Fragmented World” por causa da COP30 — é uma estrutura metodológica construída ao longo de anos. O que existe é uma correlação: dois sinais independentes, vindos de arenas completamente diferentes (diplomacia climática e supervisão financeira), apontando na mesma direção — a de um mundo que não está conseguindo produzir agência coletiva suficiente para uma transição coordenada.
A isso se soma um terceiro dado, da Emissions Gap Report 2025 do PNUMA (divulgado em novembro de 2025): a trajetória com as políticas atualmente em vigor aponta para cerca de 2,8°C de aquecimento até 2100 — uma melhora de apenas 0,1°C em relação ao ano anterior, em grande parte anulada por fatores metodológicos e pela saída dos EUA do Acordo de Paris. É esse ritmo real de implementação, mais do que qualquer texto de acordo, que faz analistas e instituições financeiras tratarem cenários como o “Fragmented World” como cada vez mais relevantes para o planejamento de risco — vale registrar que a própria NGFS evita classificar qualquer cenário como “mais provável”; ela os trata como trajetórias plausíveis para stress test, não como previsão.
A hipótese: fragmentação com lock-in parcial já em curso
A partir dessa correlação, propomos — como hipótese, não como certeza — o seguinte cenário para o horizonte de três a oito anos: o mundo seguirá sem uma agência coletiva unificada e vinculante para lidar com a crise climática. Em seu lugar, teremos um mosaico de iniciativas paralelas — mutirões, coalizões setoriais, acordos bilaterais, blocos regionais de precificação de carbono — que produzem avanços reais, mas parciais, desiguais e sem garantia de somarem o suficiente. Ao mesmo tempo, uma parte do impacto climático já está tecnicamente travada (lock-in) pelas emissões acumuladas até aqui: mesmo numa aceleração súbita e improvável de ambição global, os próximos anos já carregam consigo um grau de disrupção física — eventos extremos, estresse hídrico, perdas agrícolas regionais — que não depende mais de decisões futuras, só de decisões passadas que já foram tomadas (ou não tomadas).
Essa é a pergunta central por trás da hipótese: não “o ESG vai sumir ou virar só dado operacional”, mas sim — como as organizações planejam estrategicamente quando o próprio cenário de referência usado pelos bancos centrais já assume, como premissa de base, que não haverá coordenação global suficiente?
A controvérsia: o mutirão é insuficiente ou é adaptação pragmática?
Aqui o debate genuinamente se divide, e vale apresentar os dois lados. A leitura cética — presente na reação da própria União Europeia e de parte da sociedade civil na COP30 — é que substituir um roteiro vinculante por um mosaico de compromissos voluntários é, na prática, adiar o problema: iniciativas paralelas não têm mecanismo de cobrança, e o histórico de metas voluntárias não cumpridas é longo.
Já uma leitura mais otimista, presente por exemplo em análises sobre as “novas faces do mutirão global”, argumenta que coalizões voluntárias e atores não estatais (empresas, estados subnacionais, bancos) não substituem o multilateralismo formal, mas o complementam — e que, historicamente, desde o Acordo de Paris em 2015, é justamente essa camada paralela que tem sustentado o ritmo da ação climática quando as negociações formais travam. Essa segunda leitura reconhece, porém, que a mobilização voluntária isoladamente não tem, até agora, se mostrado suficiente para fechar a lacuna de ambição apontada pelo PNUMA.
O que diferentes atores estão tentando fazer diante disso também varia. No plano diplomático, a própria presidência da COP30 já anunciou que o roteiro de saída dos combustíveis fósseis será retomado em uma conferência sediada por Colômbia e Países Baixos em abril de 2026 — uma tentativa de reabrir, por outra via, o que não passou em Belém.
No mercado financeiro, reguladores e bancos centrais têm reforçado o uso dos cenários NGFS exatamente para forçar instituições a testar sua exposição sob hipóteses de descoordenação, não só sob cenários ordenados e otimistas. No setor de seguros, o mercado brasileiro já trata a volatilidade climática como variável central de solvência para 2026, com movimento em direção a seguros paramétricos e fundos de catástrofe — uma resposta adaptativa, não uma retirada, mas que reflete reconhecimento de que o risco físico deixou de ser hipotético.
O que isso significa, na prática, para uma empresa
Se essa hipótese de fragmentação com lock-in parcial se confirmar — e repetimos: é uma hipótese, sujeita a revisão conforme novos dados apareçam —, as implicações concretas para empresas que hoje avaliam sua estratégia de sustentabilidade não são abstratas:
- Repreficiação de ativos e ativos encalhados: um estudo das universidades de Exeter e Lancaster, publicado em setembro de 2024 na revista Environmental Research: Climate, estimou que adiar a transição até 2030 poderia tornar improdutivos até US$ 557 trilhões em capital global — cerca de 37% do capital total —, contra US$ 117 trilhões se o desinvestimento tivesse começado em 2020. O ponto central do estudo é justamente esse: quanto mais tarde e mais desordenada a transição, maior o volume de capital que muda de valor de forma abrupta, não gradual.
- Custo de capital divergente entre regiões: se a precificação de carbono e a regulação seguem trajetórias distintas por bloco geográfico — como o próprio cenário “Fragmented World” descreve —, empresas com operações multirregionais passam a enfrentar custos de capital e exigências de compliance diferentes conforme a jurisdição, tornando o planejamento de expansão mais complexo, não mais simples.
- Seguros e risco físico: a resposta do setor segurador brasileiro (produtos paramétricos, monitoramento em tempo real, fundos de catástrofe) é um indicador de que o risco físico já está sendo precificado de forma mais explícita — o que tende a se refletir, direta ou indiretamente, em custos operacionais para empresas expostas a eventos climáticos extremos.
- Dificuldade genuína de planejamento estratégico: talvez a implicação mais desconfortável seja esta — quando o próprio cenário de referência usado por bancos centrais assume descoordenação global como premissa, não existe um “caminho-base” único e estável para ancorar decisões de investimento de longo prazo. Isso não significa parar de planejar; significa planejar com múltiplos cenários explícitos, em vez de apostar tudo em uma única leitura otimista (ou pessimista) do futuro.
Como já apontam análises sobre os desdobramentos da COP30 para o setor privado, empresas sem metas de redução de emissões concretas e sem governança climática documentada já enfrentam maior restrição de acesso a financiamento — um efeito que tende a se acentuar, não diminuir, num mundo onde investidores buscam clareza justamente porque o ambiente regulatório não a oferece.
Planejar sem certeza — mas com evidência
Nada disso deveria ser lido como catastrofismo, nem como motivo para engavetar a estratégia de sustentabilidade. É o contrário: a hipótese de um mundo fragmentado, com resultados climáticos já parcialmente travados, é justamente o argumento mais forte para que empresas de qualquer porte tratem cenários climáticos como ferramenta de gestão de risco — não como exercício regulatório de caixinha a marcar. Para uma empresa de médio porte, isso não significa adotar os sete cenários da NGFS internamente; significa, no mínimo, entender em qual tipo de mundo suas decisões de investimento de três a oito anos fariam mais ou menos sentido, e revisitar essa pergunta com regularidade, à medida que novos dados — a próxima COP, a próxima rodada de cenários NGFS, o próximo relatório de lacuna de emissões — confirmem, ajustem ou contradigam essa hipótese.
Fontes
- Carbon Brief — “COP30: Key outcomes agreed at the UN climate talks in Belém”
- COP30.br — “COP30 approves Belém Package”
- Times Brasil (coluna de Marina Grossi) — “As novas faces do mutirão global pelo clima”
- NGFS — “NGFS scenarios: narratives and key findings” (novembro de 2025)
- Green Calculus — “NGFS Climate Scenarios: 7 Pathways, 4 Families”
- PNUMA (UNEP) — “New climate pledges only slightly lower dangerous global warming projections” (Emissions Gap Report 2025)
- University of Exeter — “Vast ‘stranded assets’ if world continues investing in polluting industries” (setembro de 2024)
- GSS — “COP30: principais resultados e desdobramentos para o setor privado”
- Migalhas — “O mercado segurador em 2026: Volatilidade climática, regulação e resposta social”


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