Na mesma semana, duas fotografias dos Estados Unidos que não parecem retratar o mesmo país. Em Nova York, a Climate Week NYC 2026 reúne, entre 20 e 27 de setembro, mais de mil eventos que discutem, segundo o site oficial do evento, financiamento climático, eletrificação, cadeias de suprimento e governança regulatória — coincidindo, como sempre, com a semana da Assembleia Geral da ONU. Em Washington, a Agência de Proteção Ambiental (EPA) finalizou, em 14 de setembro, a revogação da maior parte dos padrões de poluição de carbono de 2024 para usinas termelétricas a carvão e gás — a mesma semana em que a Securities and Exchange Commission (SEC) tenta, por um caminho ainda incerto, encerrar a exigência de divulgação climática que ela própria criou em 2024.
É tentador ler esse contraste como uma simples disputa entre otimismo de mercado e pessimismo regulatório — o “mundo dos negócios” seguindo em frente enquanto a política patina. A leitura tem um problema: ignora que grande parte do que acontece em Nova York depende, para valer alguma coisa fora do palco, exatamente daquilo que está sendo desmontado em Washington. E ignora também que a desregulação federal não reduz a exposição das empresas americanas e das que fazem negócio com elas — ela a torna mais fragmentada, não mais simples.
O que foi de fato revogado — e o que ainda está em aberto
Vale separar o que é ação consumada do que é proposta ainda sob disputa, porque a diferença importa para quem precisa planejar. A revogação dos limites de emissão de usinas termelétricas é uma ação final da EPA: a agência argumenta que a regulação de 2024 excedeu sua autoridade sob o Clean Air Act e que as emissões das usinas americanas “não têm impacto material sobre o clima” — alegação que colide diretamente com o precedente da Suprema Corte em Massachusetts v. EPA (2007), que reconheceu gases de efeito estufa como poluentes sob a mesma lei. A EPA de Biden projetava que a norma revogada reduziria 1,38 bilhão de toneladas métricas de CO2 até 2047 — o equivalente a um ano inteiro de emissões do setor elétrico americano. A justificativa oficial da revogação são US$ 310 bilhões em economia, mais US$ 370 milhões adicionais ao eliminar as exigências remanescentes de GEE. Uma análise independente do think tank Resources for the Future, no entanto, estima que o aumento de emissões tóxicas associado à revogação pode gerar danos à saúde pública de até US$ 476 bilhões — um número que não anula o ganho fiscal citado pela EPA, mas que mostra que a conta “economia vs. custo” está longe de fechada, e que comparar as duas cifras exige cautela: medem coisas diferentes, em horizontes diferentes, com metodologias diferentes.
Já a tentativa da SEC de revogar as regras de divulgação climática de 2024 é uma proposta, não um fato consumado. A comissão publicou a proposta de revogação em 29 de maio de 2026, argumentando que as exigências “excederam sua autoridade estatutária” e impuseram custos não justificados pelo benefício informacional aos investidores — mas as regras de 2024 já estavam suspensas por litígio desde abril daquele ano, e a própria SEC abandonou sua defesa judicial em março de 2025. O período de comentários públicos, aberto por 60 dias após a publicação no Federal Register em 3 de junho, já se encerrou. Isso não significa que a revogação está decidida: a SEC ainda precisa avaliar os comentários recebidos e publicar uma regra final, um processo que pode se estender por meses e ficar sujeito a novo litígio. Tratar a proposta como se já fosse regra vigente seria o mesmo erro de simplificação que este texto está tentando evitar do lado da EPA.
Desregular em Washington não elimina a exposição — ela a fragmenta
Aqui está o ponto que a narrativa de “os EUA estão saindo do ESG” costuma simplificar demais: mesmo que a SEC finalize a revogação, nenhuma empresa multinacional — americana ou não — fica livre de obrigações de divulgação climática só porque o regulador federal americano recuou. A prova está dentro dos próprios Estados Unidos. Na Califórnia, a CARB aprovou em fevereiro de 2026 as regras que implementam a SB 253, a lei estadual que obriga empresas com mais de US$ 1 bilhão em receita que fazem negócio no estado a divulgar emissões de Escopo 1 e 2 até 10 de agosto de 2026 — prazo que, neste momento, já passou — e Escopo 3 a partir de 2027. Já a SB 261, que exigiria relatórios de risco financeiro climático, está suspensa desde novembro de 2025 por uma liminar do Nono Circuito que discute se a obrigação viola a liberdade de expressão comercial. Duas leis do mesmo pacote, no mesmo estado, em situações opostas — uma em vigor, outra paralisada. Isso não é uma anomalia: é a fotografia mais precisa de como a regulação climática está se comportando em 2026, dentro e fora dos EUA: fragmentada, não coordenada, e cada vez menos previsível como bloco único.
Para quem exporta para a Europa, o cálculo muda ainda menos: a CSRD e o ISSB continuam exigindo divulgação de empresas com operação ou cadeia de suprimento relevante no bloco europeu, independentemente do que a SEC decidir. O resultado prático da divergência americana não é menos trabalho de compliance para uma empresa com operação global — é mais complexidade, porque agora ela precisa navegar simultaneamente um regime federal americano mais frouxo, leis estaduais americanas desencontradas entre si, e uma exigência europeia que segue seu próprio curso. Reduzir a régua em um lugar não reduz a régua no todo; só cria mais réguas diferentes para medir a mesma coisa.
O discurso do setor privado é mais forte em convicção do que em números
Em Nova York, o tom dominante é de resiliência. A RMI relata executivos afirmando que “a transição atingiu velocidade de escape e é imparável mesmo diante da volatilidade política” e descrevendo a movimentação atual como “a maior formação de capital da história”. É um discurso legítimo — mas vale notar, com o mesmo rigor que se aplica à EPA e à SEC, que essas declarações vêm sem uma cifra que as sustente. Nenhuma das fontes consultadas para esta reportagem apresenta um número consolidado de capital efetivamente mobilizado nesta edição da Climate Week, apenas a afirmação de escala do evento em si — mais de mil eventos e, segundo estimativa dos organizadores, mais de 100 mil participantes. Convicção de que “o mercado já decidiu” não é o mesmo que evidência de que o mercado decidiu; é possível — e coerente com o que se vê em outras frentes — que a mobilização privada seja real e, ainda assim, insuficiente diante do ritmo de retração regulatória.
Onde os números aparecem, eles são mais estreitos e mais específicos do que o discurso de palco sugere. A S&P Global aponta que a Task Force on Nature-related Financial Disclosures (TNFD) já reúne 620 organizações representando US$ 20 trilhões em ativos comprometidos a alinhar seus relatórios a critérios de natureza — um compromisso de divulgação, não de investimento efetivo. E cita estimativas de mais de US$ 2 trilhões em receita futura ainda não precificada em soluções de adaptação e resiliência climática — uma oportunidade de mercado projetada, que difere de capital já alocado. São sinais reais de que parte do capital privado se move independentemente da regulação federal americana; não são prova de que o setor privado, sozinho, compensa o vácuo regulatório que se abre.
Onde a divergência já apareceu no preço: seguros e custo de capital
Enquanto o debate regulatório segue em aberto, o mercado segurador já está precificando risco físico com dados concretos — com cautela sobre o que cada número mede. O Swiss Re Institute registrou perdas seguradas globais por catástrofes naturais de US$ 42 bilhões no primeiro semestre de 2026 — abaixo da média histórica de US$ 66 bilhões para o período —, com perdas econômicas totais de cerca de US$ 100 bilhões, das quais US$ 58 bilhões ficaram descobertas por seguro nesse semestre. Esse número semestral é mais baixo do que o de referência anual: o mesmo instituto havia calculado, em relatório publicado em junho de 2026, que o gap de proteção global subiu mais de 7% no ano anterior, para US$ 424 bilhões — sendo US$ 140 bilhões só na América do Norte. São medidas de períodos e metodologias diferentes e não devem ser somadas ou comparadas diretamente; o que ambas mostram, de forma consistente, é uma tendência estrutural de alta no valor não segurado do risco climático, que o Swiss Re projeta crescer entre 5% e 7% ao ano daqui para frente — não porque as catástrofes estejam necessariamente piorando ano a ano (o primeiro semestre de 2026 foi o mais brando desde 2020), mas porque o valor dos ativos expostos continua crescendo mais rápido que a cobertura de seguro.
A consequência prática, segundo a S&P Global, já aparece na repactuação de apólices residenciais nos EUA: seguradoras vêm elevando franquias e limitando cobertura em regiões historicamente consideradas de baixo risco, transferindo parte do ônus financeiro para o proprietário do imóvel — o que, segundo a mesma análise, começa a elevar o risco de inadimplência hipotecária em algumas praças americanas. Não é uma decisão regulatória. É o mercado de seguros — cuja lógica é atuarial, não política — reagindo a dados de sinistralidade que não dependem de a EPA ou a SEC manterem ou revogarem uma norma. Isso é relevante para qualquer empresa que avalie exposição a ativos físicos nos EUA ou cadeias de fornecimento que passam por regiões de risco crescente: o custo de capital e de seguro pode subir independentemente do desenho regulatório, e normalmente sobe primeiro nesses mercados privados do que nos relatórios de conformidade.
O que fica, sem catastrofismo e sem alívio fácil
Não há evidência, nos dados reunidos aqui, para apoiar nem a leitura de que “o ESG morreu nos EUA” nem a de que “o mercado resolve sozinho o que a política abandonou”. O que os dados mostram é mais estreito e mais útil: a exposição regulatória de uma empresa com operação nos Estados Unidos não desaparece com a revogação federal — ela se redistribui entre uma colcha de retalhos de leis estaduais (algumas em vigor, outras suspensas), exigências internacionais que seguem seu próprio calendário, e um mercado de seguros que já embute risco físico no preço, independentemente do que qualquer regulador decida. Para uma empresa brasileira com operação, clientes ou fornecedores expostos a esses mercados, a pergunta relevante não é “os EUA ainda exigem isso?” — é “quais das réguas que ainda estão em pé (Califórnia, União Europeia, precificação de seguro) me alcançam, e com que prazo”. É uma pergunta mais chata de responder do que qualquer manchete sobre Climate Week ou sobre desregulação — e é exatamente por isso que vale a pena fazê-la com cuidado, em vez de aceitar qualquer uma das duas narrativas prontas.
Fontes
- Climate Week NYC — site oficial do evento (2026)
- The Planet Brief — Climate Week NYC 2026: datas, agenda e decisões-chave
- RMI — Private Sector Pushes Ahead at Climate Week NYC
- S&P Global Sustainable1 — 5 Climate Week NYC takeaways
- Inside Climate News — EPA repeals power plant carbon rules (14/09/2026)
- SEC — SEC Proposes Rescission of Climate-Related Disclosure Rules
- Federal Register — Rescission of Climate-Related Disclosure Rules
- Nixon Peabody — California climate disclosure laws: SB 253 e SB 261, atualização
- Swiss Re Institute — First-half 2026 insured natural catastrophe losses
- Claims Journal — Natural-Disaster Insurance Gap Now Tops $420B Globally, Swiss Re Says
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